Valentina sentiu o ar prender.
Rafael continuou, agora mais perto, próximo o bastante para que a voz dele quase roçasse a pele.
— Desde o dia em que você decidiu sair daquela casa para trabalhar, tinha gente minha te acompanhando. Desde o dia em que você foi até a empresa, quando já sabia de tudo, tinha gente indo e vindo em cada canto por onde você passava. Em Harvard. No escritório. Na rua. Em todo lugar.
Ela deu mais um passo.
Agora estavam perto demais para fingir neutralidade.
— Então me deixar fazer tudo o que eu fiz no tribunal… me deixar naquele estado miserável, me vendo mandar para a cadeia o homem que eu amo… — a voz dela falhou na última palavra, mas ela não recuou — …também fazia parte do seu plano?
Rafael permaneceu imóvel por um segundo. Os olhos desceram ao rosto dela com uma intensidade que doía.
Ela parou exatamente diante dele.
— Desde o começo eu fui uma peça no seu jogo?
Ele balançou a cabeça uma vez, muito de leve.
— Não.
A palavra veio baixa. Grave.
— Você nunca foi uma peça do meu jogo.
Valentina sustentou o olhar dele, exigindo mais.
— Então por quê, Rafael? Por que você fez tudo assim? Por que desde o início?
Ele suspirou. Um som mínimo, cansado, como se o corpo dele também estivesse no limite do que conseguia conter. Então tirou uma das mãos do bolso e levou até o rosto dela, devagar, sem pressa, como se desse a ela todo o tempo do mundo para recuar.
Ela não recuou.
Os dedos dele tocaram uma mecha caída perto de sua testa e a afastaram com cuidado. Depois ficaram ali. Quentes. Firmes. Confortáveis de um jeito que quase a fez chorar antes da hora.
— Você nunca foi uma peça, Valentina… — murmurou ele. — Você sempre foi a mão que movia o jogo.
O coração dela se partiu mais um pouco.
Porque aquilo tinha a forma exata de uma verdade que explica demais e cura de menos.
Valentina fechou os olhos por um instante breve, apenas sentindo a mão dele em seu rosto como se o corpo quisesse memorizar aquilo antes que o mundo estragasse de novo.
Quando abriu os olhos, havia lágrimas.
— Então por que você me deixou te odiar? — perguntou, e agora a voz era mais fraca, mais exposta, mais dela. — Por que me deixou daquele jeito? Por que me deixou tão miserável?
Rafael levou a outra mão ao queixo dela, erguendo levemente seu rosto até que as lágrimas que escorriam ficassem presas à luz fria do banheiro como pequenas provas do que nenhum dos dois conseguia mais esconder.
Os próprios olhos dele estavam úmidos.
Não de fragilidade.
De exaustão.
De amor espremido até virar ferida.
— Porque era a única forma de te salvar — disse ele. — E de salvar o nosso bebê.
A frase atravessou tudo.
— A gente está num jogo em que o vilão não blefa, Valentina. Ele age. Ele mata. Ele não se importa com as consequências.
Ela respirou mal.
Rafael desceu os olhos por um segundo até a barriga dela e algo no rosto dele mudou. Suavizou. Quebrou. Viveu.
Quando voltou a olhá-la, já não havia mais espaço entre os dois que pudesse ser chamado de prudência.
Valentina ergueu uma das mãos e tocou o punho dele no próprio rosto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário