O som no corredor cresceu rápido demais.
Passos firmes. Vozes. Aproximação.
Rafael reagiu antes mesmo de pensar. O corpo inteiro voltou ao estado de alerta, os sentidos afiados como lâminas. Em um movimento preciso, ele soltou Valentina com cuidado — não brusco, nunca brusco com ela — e deu um passo para trás.
— Vai — murmurou baixo, a voz ainda carregando o eco do beijo.
Mas antes de se afastar completamente, ele segurou o rosto dela por um segundo a mais, os olhos cravados nos dela com intensidade absoluta.
— Continue a sua vingança… — disse, quase inaudível. — Eu estou com você em cada passo.
O polegar dele roçou de leve a pele dela, apagando um resquício de lágrima.
— E não esquece… eu te amo.
E então ele se foi. Rápido. Silencioso.
Entrou na última cabine e fechou a porta no exato segundo em que a maçaneta do banheiro principal girou.
Valentina ficou parada por meio segundo.
Só um.
Respirou fundo.
E voltou a ser quem precisava ser.
Virou-se para a pia, abriu a torneira e levou água ao rosto, apagando os rastros do que tinha acabado de acontecer. Não podia sobrar nada. Nenhum sinal. Nenhuma falha.
Quando levantou o olhar para o espelho…
A máscara estava de volta.
Foi nesse instante que Helena entrou.
— Que bando de inúteis naquele corredor… — resmungou, irritada, fechando a porta atrás de si.
O salto dela ecoou no mármore enquanto se aproximava.
Valentina não se virou de imediato. Terminou de secar o rosto com calma, controlando a respiração, o ritmo do corpo, o coração que ainda insistia em bater mais rápido do que deveria.
— Minha querida… — Helena disse, agora mais doce, mais calculada — você demorou. Fiquei preocupada.
Valentina virou-se então.
E sorriu docemente.
— Desculpa… — respondeu com leveza. — Acho que o bebê não quis me deixar em paz hoje.
Helena parou a poucos passos.
Observou.
Rápido demais para parecer suspeita.
Detalhado demais para ser inocente.
Os olhos dela passaram pelo espelho. Pelas cabines. Pelo ambiente.
Buscando.
Sempre buscando.
— O que foi? — perguntou, estreitando levemente o olhar.
Valentina soltou um suspiro leve, controlado.
— Não sei… acho que comi algo que não deveria. — levou a mão à barriga de forma natural — não estou me sentindo muito bem.
Helena se aproximou.
E a abraçou.
Um gesto que, para qualquer outro, pareceria cuidado.
Mas Valentina já sabia. Ali havia cálculo.
— Eu imagino… — murmurou Helena, perto demais do ouvido dela — ver a pessoa que matou seus pais sair livre da prisão… sendo ovacionado pelo mundo… enquanto você segue sem justiça…
Valentina sentiu o gosto amargo subir pela garganta.
Mas não vacilou. Não um segundo.
A mão dela se fechou levemente, quase imperceptível.
— Sim… — respondeu, com a dose exata de dor na voz — você tem razão.
Respirou fundo.
— Ver o Rafael livre… não me desce.
E ali… ela mentiu perfeitamente.
— Mas eu vou recorrer. — completou, agora mais firme. — A impunidade não vai ficar assim.
Helena sorriu satisfeita.
— É assim que se fala. — disse, alisando o braço dela — ele sempre se achou intocável.
Valentina inclinou levemente a cabeça.
— Vamos? O Enzo deve estar preocupado.
— Vamos.
Ela saiu.
Sem olhar para trás. Porque sabia… Se olhasse…Perderia tudo.
O corredor parecia mais estreito do que antes.
O som do salão voltando.
A luz. As vozes. A guerra.
Segundos depois…
A porta da última cabine se abriu.
Rafael saiu.


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