O mundo acordou em colapso.Não foi um escândalo pequeno, desses que ocupam uma manhã e morrem ao meio-dia soterrados por outra tragédia qualquer. Foi o tipo de notícia que explode cedo demais, se espalha rápido demais e carrega nomes grandes o suficiente para fazer a cidade inteira parar por alguns segundos antes de fingir que continua funcionando normalmente.
Quando os primeiros raios de luz tocaram os vidros da mansão Montenegro, a prisão do juiz Morrison já era manchete em todos os canais, em todos os portais, em todos os programas de debate jurídico e econômico que adoravam transformar podridão institucional em espetáculo de audiência.
Lavagem de dinheiro. Venda de sentenças. Arquivamento de processos mediante suborno. Liberação proposital de empresários envolvidos em crimes financeiros e homicídios disfarçados. Manipulação de provas. Vazamento de informação privilegiada. Contas ocultas. Intermediação criminosa.
O nome do juiz vinha arrastando outros atrás de si.
E, no meio da sujeira, começavam a surgir rostos borrados, fotos cortadas, encontros suspeitos, registros que não deixavam mais dúvida de que o homem não trabalhava sozinho.
A última ponte de salvação de Enzo Montenegro tinha acabado de desabar em rede nacional.
Valentina ainda dormia quando os primeiros barulhos começaram do lado de fora do quarto.
Não eram sons normais de casa grande despertando. Eram passos mais duros. Vozes curtas. Portas abrindo com urgência. O tipo de movimentação que faz o corpo entender antes da mente que alguma coisa grave aconteceu.
Ela abriu os olhos devagar.
Ficou imóvel por um segundo, encarando o teto, sentindo o peso morno do cobertor sobre as pernas e a lembrança da ligação da noite anterior feita por Salomão, baixa, discreta, informando apenas o suficiente:
A operação vai acontecer ao amanhecer.
Não havia nervosismo nela.
Havia espera.
Então vieram as batidas na porta.
Rápidas.
Apressadas.
— Senhora?
Era Maria.
Valentina sentou-se na cama, ajeitou o cabelo para trás e deixou a voz sair ainda rouca de sono.
— Entra.
Maria atravessou a porta já com a expressão assustada, as mãos apertadas na frente do corpo, a respiração mais curta do que o normal.
— Senhora… a polícia está na casa.
Valentina franziu levemente a testa e se sentou mais ereta.
— O que está acontecendo?
Maria, sem saber se falava ou corria, fez as duas coisas ao mesmo tempo. Pegou o controle da televisão, ligou o aparelho preso à parede e aumentou o volume.
Na tela, uma repórter falava com a tensão animada de quem sabia estar diante de uma notícia enorme.
Atrás dela, imagens do fórum, do tribunal, da residência oficial do juiz, de carros descaracterizados e mandados sendo cumpridos em diversos endereços.
Na parte inferior da tela, a legenda corria em vermelho:
JUIZ MORRISON É PRESO EM OPERAÇÃO CONTRA CORRUPÇÃO, LAVAGEM DE DINHEIRO E VENDA DE DECISÕES JUDICIAIS
Valentina levou a mão à boca no tempo exato de quem precisava parecer surpresa.
— Oh, meu Deus… mas por quê?
Maria virou-se para ela.
— Estão dizendo que ele recebia dinheiro para favorecer empresários, arquivar denúncias, manipular processos… e que tem gente grande envolvida.
Na tela, o nome de Enzo não aparecia ainda de forma aberta.
Mas apareceria.
E ambas sabiam disso por razões diferentes.
Valentina levantou-se.
— Me ajuda com uma roupa.
Enquanto Maria corria até o closet, ela ficou olhando a televisão por mais alguns segundos. Uma parte dela sentiu satisfação. Outra, nojo. Outra ainda, mais silenciosa, percebeu o peso daquilo. Não era só a queda de um juiz corrupto. Era o início visível do incêndio. E incêndio, uma vez aceso, quase nunca escolhe com cuidado o que consome.
Vestiu-se rápido, sem exagero, sem maquiagem além do necessário, e saiu do quarto com a televisão ainda ligada atrás de si.
No andar de baixo, a cena já tinha mudado completamente a atmosfera da casa.
Dois policiais circulavam pelo hall principal, outro falava ao telefone perto da biblioteca, e um quarto analisava documentos sobre a mesa central com a postura profissional de quem já estava acostumado a entrar em mansões ricas onde a elegância servia só para esconder podridão. Funcionários recuavam pelos cantos, em silêncio absoluto, como se o medo tivesse ensinado a todos que qualquer ruído ali poderia ser mal interpretado.
No sofá da sala principal, Helena estava sentada.
Acuada.

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