Valentina pegou o telefone e discou para Lurdes.
A ligação foi atendida no segundo toque.
— Senhora?
— Lu, quero que pare com qualquer trabalho que estivermos tocando nesses dias. Nossa prioridade agora é o caso do Enzo.
Do outro lado, silêncio.
Longo demais para ser casual.
Lurdes era boa. Boa o suficiente para perceber que aquela ordem tinha mais de uma camada.
— Sim, senhora — respondeu por fim, num tom neutro, controlado.
— Organize tudo. Quero acesso total ao que surgir sobre o juiz Morrison e qualquer nome vinculado a ele.
— Sim, senhora.
Valentina desligou.
Voltou-se para Helena.
— Vou colocar meu escritório nisso.
As lágrimas de Helena aumentaram na hora. Gratidão forçada, medo real.
— Obrigada… obrigada, minha querida. Obrigada por ajudar o meu filho nessa situação.
Valentina segurou a mão dela com a mesma delicadeza com que se segura uma arma antes de apontá-la.
— Confia em mim. Vocês foram muito bons comigo… eu serei eternamente grata a vocês.
O policial voltou a falar com outro agente. Maria desviou o olhar. Helena assentia com pressa demais. E ninguém, absolutamente ninguém naquela sala, poderia adivinhar que a mulher que acabara de oferecer ajuda era a mesma que tinha colocado a primeira dinamite na base da casa.
O resto do dia se arrastou em tensão.
Enzo não voltou.
Advogados entraram e saíram. Telefones tocaram. Documentos foram levados. A imprensa acampou do lado de fora em número crescente, e a mansão, antes palco de luxo e aparências, passou a parecer um animal ferido cercado por predadores.
Valentina se manteve serena.
Atenta.
Em silêncio.
Ajudou o suficiente para parecer indispensável. Falou pouco. Ouviu muito. E passou o dia inteiro observando Helena envelhecer dez anos na frente dela.
Quando a noite caiu de vez e a casa finalmente mergulhou naquele silêncio tenso que só aparece quando todos estão exaustos demais para fingir normalidade, Valentina subiu para o quarto.
Mas não dormiu.
Não conseguiu.
Havia um peso estranho no ar, como se a casa inteira estivesse esperando a chegada de alguma coisa pior.
Ela ouviu o carro antes de ver.
Portas.
Passos duros.
Um objeto sendo jogado sobre uma superfície com força demais.
Valentina saiu do quarto em silêncio e caminhou até o topo da escada, mantendo-se onde a sombra a cobria.
Lá embaixo, Enzo tinha acabado de entrar.
Parecia outro homem.
A compostura elegante da tarde anterior tinha sido substituída por fúria mal contida. O paletó vinha aberto, a gravata afrouxada, o cabelo levemente desalinhado, o rosto tenso demais até para fingir calma. Ele foi direto até o bar da sala e, sem nem olhar direito, puxou um copo, serviu uísque em quantidade indecente e o bebeu de uma vez.
Quando o copo encontrou a mesa com violência, o cristal trincou.
Helena desceu rápido demais para parecer tranquila.
— Enzo…
Ele virou-se.
Os olhos dele brilhavam de raiva.
— A casa está caindo, mãe.
A frase saiu entre os dentes.
— Tantos anos… e estávamos tão perto.
Helena parou a poucos passos.
— O que disseram?
Enzo serviu mais uísque.
Dessa vez a mão tremia.
— Disseram que eu tenho quarenta e oito horas para apresentar explicações. Quarenta e oito. Todas as provas estão contra mim.
— Agora? Agora eu não posso sair do país. Meu passaporte foi confiscado. Eu tenho que ficar aqui e esperar o próximo passo deles para dar o meu.
Ele se virou de repente, batendo a mão na mesa com tanta força que o som ecoou pela sala.
— Mas eu vou descobrir quem entrou aqui.
A voz caiu. Mortal.
— E vou acabar com a vida desse desgraçado.
Helena recuou meio passo.
— Enzo…
Ele a ignorou.
O olhar fixo em algum ponto escuro da sala como se já estivesse imaginando a destruição.
— Depois, Rafael. — A palavra saiu como veneno. — Ele tem que morrer.
No alto da escada, Valentina prendeu a respiração.
Cada frase dele era uma peça confirmando o monstro.
Cada palavra era mais uma camada arrancada da máscara.
Cada ameaça fazia o sangue dela ferver mais.
Ela apertou o corrimão ainda com mais força, o corpo inteiro rígido, o rosto imóvel no escuro.
A casa dele estava caindo.
E ele sabia.
Mas ainda não tinha entendido quem acendera o fogo.
Valentina recuou um passo, ainda em silêncio absoluto, e antes de voltar para o quarto lançou um último olhar para a cena lá embaixo: Helena desmoronando por dentro, Enzo afundado na própria raiva, o cristal trincado sobre a mesa, o uísque derramado como se até o luxo da sala tivesse começado a sangrar.
Então subiu.
Fechou a porta do quarto sem fazer barulho.
E só quando ficou sozinha, a mão ainda apoiada na madeira, deixou que um sorriso muito pequeno, muito frio e muito satisfeito surgisse em seus lábios.
— Enzo… — sussurrou para o escuro. — Sua casa está caindo.
Ela levou a mão até a barriga, sentindo o próprio coração e outro batendo em algum lugar dentro dela, e fechou os olhos.
— E eu vou me vingar de você até o fim.

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