A manhã nasceu silenciosa demais. Não era o silêncio comum de uma casa grande ainda acordando, nem aquele respiro tranquilo de um lugar em que todos dormem sob o conforto da rotina. Era outro tipo de quietude. Uma que parecia pairar no ar com peso próprio, como se a própria casa estivesse prendendo a respiração, à espera de alguma coisa que ninguém ainda conseguia nomear, mas que, de algum modo, já estava a caminho.
Valentina abriu os olhos devagar, sem se mover de imediato. O quarto ainda estava meio banhado pela luz pálida do amanhecer, filtrada pelas cortinas claras que deixavam entrar um dourado fraco, quase frio. Por um segundo, ficou ali, encarando o teto e sentindo o corpo ainda pesado do cansaço dos últimos dias. O mundo tinha desabado rápido demais ao redor dela — prisão de juiz, escândalos, máscaras caindo, ameaças ficando cada vez menos sutis — e, mesmo assim, ali, naquele quarto, tudo parecia ter retomado uma aparência quase normal. Quase.
Ela já sabia que, naquela altura da história, normalidade era só mais uma mentira bem vestida.
As batidas na porta vieram pouco depois, firmes, contidas, num ritmo que ela já reconhecia.
— Senhora?
Era Maria.
Valentina se sentou devagar na cama, afastando os cabelos do rosto.
— Entra.
Maria atravessou a porta com a postura alinhada de sempre, mas havia um cuidado novo nos movimentos dela. Não era nervosismo. Era vigilância. Como se cada gesto estivesse sendo feito com atenção redobrada, como se até a forma de respirar tivesse sido disciplinada.
— A senhora vai mesmo sair hoje?
Valentina apoiou os pés no chão e ergueu os olhos para ela.
— Eu tenho uma vida, Maria. E tenho trabalho. Não posso me esconder agora.
A resposta saiu simples, direta, mas sem dureza.
Maria hesitou só um instante.
— Sim, senhora.
Valentina se levantou e caminhou até o banheiro.
— Separe algo discreto. Hoje eu preciso parecer credível, não vistosa.
— Já pensei nisso — respondeu Maria, e havia algo quase automático na prontidão dela.
Claro que já tinha.
O som do chuveiro logo encheu o banheiro, abafando qualquer outro ruído da casa. A água quente escorreu pelos ombros de Valentina com a promessa mentirosa de alívio, e por alguns minutos ela ficou ali, de olhos fechados, deixando o corpo receber aquele pequeno intervalo de paz antes de voltar ao campo de guerra. A mente, porém, não descansava. Tudo continuava se movendo por baixo da pele: Rafael, o coquetel da Fênix, o juiz caído, Enzo acuado, o cofre aberto, as provas nas mãos certas, o monstro agora cercado por todos os lados.
Quando saiu do banho, Maria já tinha deixado as roupas sobre a cama. O conjunto escolhido era impecável na sobriedade: elegante sem ostentar, firme sem parecer agressivo, o tipo de roupa que fazia qualquer um olhar para Valentina e pensar em competência antes de pensar em beleza. Ela vestiu-se sem pressa, e Maria a ajudou com o fechamento, ajustando detalhes com a precisão de quem conhecia bem demais os rituais daquela casa.
Depois recuou um passo e analisou o resultado.
— A senhora está impecável.
Valentina ergueu os olhos para o espelho.
A mulher refletida ali não parecia cansada. Não parecia perseguida. Não parecia uma grávida no centro de uma guerra criminosa, emocional e jurídica ao mesmo tempo. Parecia controle. E, naquela manhã, era exatamente isso que ela precisava vestir.
— Vamos.
Desceram juntas.
A casa continuava estranha.
Não vazia de gente, porque sempre havia alguém em algum lugar dentro da mansão. Mas vazia de som verdadeiro. Não havia conversa solta, nem passos descuidados, nem o ruído doméstico das coisas acontecendo naturalmente. Tudo parecia abafado, contido, como se as paredes ainda estivessem absorvendo o eco da noite anterior.

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