O escritório ainda estava com o cheiro de uísque da noite anterior quando Rafael entrou. Moreira o aguardava como um soldado à espera de ordens.
— Trouxe o que pedi? — Rafael perguntou.
Moreira ergueu a pequena caixa como quem apresenta um artefato sagrado.
— Sim, senhor. Está configurado com todos os protocolos.
Rafael pegou o celular com um aceno curto.
— Vamos.
Subiram a escada em silêncio. O ar da mansão parecia mais pesado, como se soubesse o que ia acontecer.
Rafael bateu na porta.
Bianca abriu com o sorriso mais debochado da história das cunhadas improvisadas.
— Olhaaaa… quem apareceu. — ela cantarolou, abrindo mais a porta. — Entra, cunhado. A Val tá deitada.
Rafael entrou sem olhar muito para ela.
Valentina estava sentada na cama, costas retas, corpo frágil, expressão firme demais para alguém que quase morreu.
O olhar dela encontrou o dele por dois segundos.
Dois segundos que queimaram.
— Como você está? — Rafael perguntou, neutro como mármore.
Valentina abaixou os olhos.
— Estou bem — mentiu. — Obrigada por mandar me buscar.
Bianca virou de lado, indignada, mas ficou calada.
Valentina inspirou, se levantando com cuidado.
— Eu… queria agradecer por ter me salvado.
Rafael trincou o maxilar, a veia do pescoço marcando.
— Não fiz nada. — ele respondeu. — Foi o Moreira.
O assistente arregalou os olhos até perder metade da alma.
— S-senhor… eu—
— A obrigação dele é saber onde você está. — Rafael completou, firme.
Valentina virou para Moreira, e a gentileza dela bateu direto no coração do coitado.
— Obrigada, Moreira. De verdade.
Se pudesse, o homem evaporava.
Mas quando ela voltou os olhos para Rafael, a dor bateu.
— Eu me lembro de você lá. — ela disse, suave, sincera. — Eu lembro da sua mão me segurando. Obrigada também.
Rafael desviou o olhar imediatamente.
Foi tão rápido que Bianca percebeu.
Foi tão brusco que Valentina sentiu.
Moreira ergueu a sacola.
— Um presente, senhora Montenegro. — disse. — Seu novo celular.
Valentina o pegou devagar.
— Obrigada… mesmo.
Rafael apenas assentiu.
Virou para sair.
Mas Valentina deu um passo, segurou a mão dele — e isso parou o mundo.
Ele congelou.
Bianca prendeu a respiração. Moreira arregalou os olhos. E Valentina falou:
— Rafael… eu preciso da sua ajuda de novo.
Ele virou o rosto devagar, olhando-a sem piscar.
— O que foi?
Ela respirou fundo.
— Quero denunciar a Isabella por tentativa de assassinato.
A mão dele apertou a dela — sem querer, mas apertou.
O corpo inteiro dele ficou rígido.
Bianca deu um pulo.
— ISSO! Denunciar essa filha da—
Mas Rafael a cortou.
Frio.
Direto.
Cruel sem elevar a voz.
— Você não vai fazer isso.
Valentina recuou meio passo, surpresa.
— Como assim “não vou”? Ela tentou me matar!
— Esqueça. — Rafael repetiu, firme. — Nada de polícia. Nada de denúncia. Nada de escândalo.
Bianca explodiu como uma panela de pressão sem tampa:
— VOCÊ TÁ MALUCO?! A menina quase MORREU e você quer—
Rafael virou o olhar lentamente para Bianca.
Um olhar gelado e preciso.
— Senhorita Kato. — disse, formal, impecavelmente educado e completamente hostil. — Aconselho que cuide das questões da sua família. Da minha, cuido eu.
Bianca abriu a boca, chocada e em fúria absoluta.
— O QUÊ?! COMO É QUE É?! — ela deu um passo à frente. — EU CUIDO DA MINHA FAMÍLIA, E VALENTINA É DA MINHA FAMÍLIA DESDE QUE VOCÊ ABANDONOU ELA NO HOSPITAL! NÃO VEM DAR LIÇÃO DE MORAL AQUI NÃO!
Rafael nem piscou.
— Eu não repito orientações. — disse ele, cortando.
Valentina tocou o braço de Bianca, tentando acalmar.
— Bia… deixa.
— NÃO DEIXO NADA! — Bianca retrucou. — Valentina, abre o olho! Ele tá defendendo aquela cobra da Isabella!
Valentina respirou fundo, olhando Rafael nos olhos.
— Você está defendendo ela, Rafael? Ela te tou me matar e você a defende?
Um silêncio pesado caiu.
Rafael segurou o controle com os dentes.

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