Rafael estava em seu escritório, ele permanecia de pé diante da janela, as mãos nos bolsos da calça social, o olhar fixo em um ponto qualquer da cidade que não exigia resposta.
Ele não estava trabalhando.
Estava calculando.
Moreira entrou sem fazer ruído.
— Senhor. — anunciou, com a voz baixa de quem sabe quando interromper.
Rafael não se virou.
— Fale.
Moreira caminhou até a lateral da mesa e abriu o tablet.
— A senhora Montenegro saiu da mansão por volta das dez e vinte. — começou. — Sem escolta. Apenas o motorista.
Rafael fechou os olhos por meio segundo.
— Para onde?
— Um café no centro. — Moreira respondeu.
Rafael virou-se lentamente.
— Sozinha?
— Não. — Moreira ajustou os óculos. — O senhor Rogério estava lá.
O nome caiu no ambiente como algo que nunca deveria ter voltado a existir.
Rafael não reagiu de imediato.
— Quanto tempo?
— Aproximadamente trinta e sete minutos. — disse Moreira. — Conversaram baixo. O áudio não foi claro.
Ele deslizou o tablet pela mesa.
Na tela, imagens ampliadas das câmeras internas e externas.
Valentina sentada. Postura ereta. Rogério inclinado para frente. Tensão visível mesmo sem som.
Rafael se aproximou devagar.
— Continue.
— Após o encontro com o tio, — Moreira prosseguiu — a senhora Montenegro permaneceu no local. Alguns minutos depois, a senhorita Bianca chegou.
Rafael observou a imagem de Valentina sorrindo — um sorriso raro, mais leve do que ele via ultimamente.
— Elas conversaram, comeram e depois cada uma seguiu seu rumo— disse Moreira.
Rafael apertou o maxilar.
— O que mais ?
Moreira avançou o vídeo.
Valentina se levantando. Rogério também.
Ela tirando um cartão da bolsa. Entregando a ele.
Rogério guardando. Saindo.
Sozinho.
O silêncio no escritório ficou mais denso.
— Cartão? — Rafael perguntou, finalmente.
— Sim, senhor. — respondeu Moreira. — Não foi possível identificar o conteúdo.
Rafael se afastou da mesa.
— A dívida de cinco milhões. — disse, mais para si do que para o outro.
Moreira permaneceu calado.
— Os cinco milhões que não era para Rogério pedir mais. — Rafael repetiu, agora com a voz mais baixa.
Ele passou a mão pelo rosto, lento.
Não havia fúria cega ali.
Havia incredulidade.
— Como? — perguntou. — Como ela conseguiu esse valor sem falar comigo?
Moreira não respondeu de imediato. Pois não sabia o que responder e interromper Rafael no meio de seus pensamentos era um crime punível imediatamente.
— Bianca não tem esse capital. — Rafael continuou. — Valentina não tem liquidez para isso. Nenhum banco liberaria esse montante sem garantias. Mesmo ela usando meu nome.
Ele se virou de novo para Moreira.
— Ela não me pediu nada. — disse, agora com algo diferente na voz. — Não falou. Não insinuou. Não deixou escapar. Como ela conseguiu cinco milhões?
Moreira sustentou o olhar.
— Não sei senhor.
Rafael ficou imóvel.
— Por quê? Ela não veio até mim, era fácil — disse. — Era só... Me pedir.
Moreira ajustou os óculos, escolhendo as palavras como quem pisa em vidro.
— Talvez senhor, pedir implicaria aceitar ajuda direta. — disse. — E a senhora Montenegro… não gosta de dever.
Rafael soltou um ar curto pelo nariz.
— Ela já deve. — respondeu. — Está aqui por um contrato.
— Talvez ela não veja assim. — Moreira disse, com cuidado. — Talvez ela diferencie o que é acordo… do que é dependência.
Rafael ficou em silêncio.
O relógio na parede marcou segundos demais.
— Nós fomos brandos com ele. — Moreira disse de repente.
Rafael ergueu o olhar.
— Com Rogério?
— Sim. — Moreira respondeu. — deveríamos ter encerrado essa conversa senhor. Pois ele não levou a sério o que falamos.
— Você tem razão. Estou abrandando muito as punições.
Rafael fechou os olhos.
Não por raiva.
Por cálculo tardio.
— Traga Rogério aqui. — disse.
A frase não veio alta. Não veio violenta.
Veio definitiva.
Moreira assentiu imediatamente.
— Sim, senhor.
Virou-se para sair.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário