Valentina ficou alguns segundos olhando para o teto, depois que Lucas saiu do quarto, como se precisasse se convencer de que aquilo era real. O cheiro de hospital, o bip ritmado do monitor, a mão de Bianca ainda segurando a dela.
Tudo ali dizia que ela estava viva.
Mas o corpo não acreditava.
— Bi… — a voz saiu baixa, rouca, como se tivesse sido usada demais. — Eu não sei por onde começar.
Bianca não respondeu de imediato. Apenas apertou a mão dela com cuidado, ancorando.
— Começa do jeito que der. — disse. — Eu tô aqui pra ouvir tudo.
Valentina respirou fundo. O peito doeu.
— Eles me levaram muito rápido. — começou. — Eu nem entendi o que estava acontecendo. Um segundo eu estava andando… no outro eu estava no chão.
Ela engoliu em seco.
— Eu ouvi os tiros. Vi os seguranças caírem. Eu tentei correr… — a voz falhou — …mas não consegui.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
Bianca sentiu o impacto da cena sem precisar de mais detalhes.
— Eu gritava. — Valentina continuou. — Gritava tanto, Bi… e ninguém vinha.
A primeira lágrima escorreu.
Depois outra.
— Eles me amarraram. — disse, num fio de voz. — Me jogaram num galpão. Escuro. Frio. Sujo. Eu não sabia se era dia ou noite.
Ela tremeu levemente.
Bianca se aproximou mais, apoiando o antebraço na cama, sem interromper.
— Eles diziam que ninguém estava procurando por mim. — Valentina confessou. — Que meu marido não estava com pressa. Que talvez nem se importasse.
O choro veio sem controle agora.
— E eu tentei não acreditar. Juro que tentei. Mas… — ela fechou os olhos — …o tempo passava. Eles voltavam. Me batiam. Me ameaçavam. E ninguém aparecia.
Bianca levou a mão livre ao rosto, os olhos ardendo.
— Eu achei que ia morrer lá. — Valentina disse, quase num sussurro. — Eu sabia que ia morrer lá.
Ela respirava rápido demais.
— Teve uma hora… — continuou — …que eu parei de pedir socorro. Eu só queria que acabasse logo.
Bianca sentiu o peito apertar violentamente.
— Val… — tentou dizer.
— Eles falaram que iam me matar se ele não pagasse. — Valentina prosseguiu. — E depois disseram que talvez nem dinheiro resolvesse. Que queriam me quebrar primeiro.
Ela abriu os olhos e olhou diretamente para Bianca.
— Eu fiquei com medo de enlouquecer. — disse. — De não sair inteira de lá… mesmo que saísse viva.
Bianca não aguentou.
Levantou-se um pouco e envolveu Valentina com cuidado, sem apertar demais por causa dos ferimentos.
— Eu sinto muito. — disse, com a voz embargada. — Sinto tanto…
Valentina se agarrou ao abraço como se aquilo fosse a única coisa firme no mundo.
— Quando eu ouvi tiros… — ela murmurou — …eu achei que era o fim. Achei que eles estavam voltando.
As lágrimas molharam o ombro de Bianca.
— E aí alguém me pegou. — continuou. — Me tirou do chão. Falava comigo. Mandava eu não dormir.
Ela se afastou um pouco para respirar.
— Mas eu já estava tão longe, Bi… tão cansada…
Bianca acariciou o cabelo dela com cuidado.
— Você foi muito forte. — disse. — Muito mais do que imagina.
Valentina balançou a cabeça negativamente.
— Eu não me senti forte. — respondeu. — Eu me senti pequena. Sozinha. Esquecida.
Bianca respirou fundo, segurando o choro para não desmoronar junto.
— Você não estava sozinha. — disse, com firmeza. — Nunca esteve.
Valentina levantou o olhar, confusa.
— Como assim…?
Bianca hesitou um segundo.
O suficiente para escolher as palavras certas.
— Eu soube do sequestro muito rápido. — disse. — E não foi por notícia, Val.
Valentina franziu a testa.
— O Rafael me ligou. — Bianca completou. — Pouco tempo depois que tudo aconteceu.
Valentina congelou.
O choro cessou abruptamente, substituído por confusão.
— O quê…? — murmurou.
Bianca segurou a mão dela com mais firmeza.
— Calma. — disse. — Eu te explico tudo. Mas agora… respira primeiro.
Valentina respirou fundo, o coração acelerado por outro tipo de medo.
— Bianca… — disse, a voz trêmula — …o que você está dizendo?
— O Rafael… — começou, mas a palavra morreu antes de virar pergunta.
Bianca percebeu.
Sentou-se melhor na cadeira, ajustando o corpo como quem sabe que agora não podia errar uma sílaba sequer.
— Val… — disse com cuidado. — Você não viu o que aconteceu fora daquele galpão.
Valentina engoliu em seco.
— Eu achei que ele não tinha vindo. — confessou, finalmente, a voz frágil. — Achei que… — fechou os olhos — …que eu não importava o bastante.
A frase caiu pesada.
Bianca sentiu como se alguém tivesse apertado seu peito por dentro.
— Não. — respondeu de imediato. — Isso não é verdade.

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