O quarto ainda carregava o silêncio frágil de quem tinha voltado do limite.
Valentina estava recostada na cama, os olhos semicerrados, o corpo cansado demais para sustentar qualquer emoção longa. Bianca permanecia ao lado, sentada na cadeira, segurando a mão da amiga como se, ao soltar, algo pudesse quebrar de novo.
O bip constante do monitor marcava o tempo.
A porta se abriu.
— Então… foi aqui que esconderam minha menina.
A voz entrou antes da presença.
Firme. Cheia. Donde vinha, ninguém ignorava.
Bianca ergueu o rosto no mesmo instante.
— Vovó…
Valentina piscou devagar.
O reconhecimento veio antes da surpresa.
— Vovó Kato…?
Ela entrou sem pedir licença — como sempre. Baixinha, postura impecável, cabelo branco perfeitamente arrumado, olhar afiado como lâmina bem cuidada. Parou ao lado da cama e observou Valentina com atenção absoluta.
Os hematomas.
O curativo.
A palidez.
O sorriso demorou a aparecer.
— Olha só… — murmurou, num tom baixo, contido. — Ainda bem que você é mais teimosa do que o mundo.
Valentina sentiu os olhos arderem.
— Eu… — tentou falar.
— Agora não. — interrompeu a vovó, erguendo a mão. — Quem fala sou eu.
Ela puxou a cadeira e sentou-se ao lado da cama. Com um cuidado que contrastava com a firmeza da voz, segurou o rosto de Valentina entre as mãos.
— Você voltou. — disse simplesmente. — E isso é tudo o que importa.
Valentina engoliu em seco.
— Eu achei que… — a frase morreu.
— Eu sei. — respondeu a vovó. — Mas você não nasceu para morrer com medo. Muito menos sozinha.
Bianca respirou fundo, emocionada.
— A senhora veio correndo. — disse. — Nem avisou.
— Avisei o necessário. — respondeu ela. — O resto é urgência.
Valentina soltou um riso fraco.
— A senhora continua assustadora.
— Ainda bem. — devolveu a vovó. — Mulher doce demais não sobrevive nesse mundo.
Nesse momento, Lucas apareceu à porta.
— Dona Kato… — disse, respeitoso.
Ela virou-se lentamente e o encarou de cima a baixo.
— Lucas. — disse, reconhecendo-o sem esforço. — Vejo que continua vivo. Bom sinal.
Ele sorriu de canto.
— Tento manter a tradição.
Ela cruzou os braços.
— E continua fugindo de compromisso?
Lucas tossiu, sem graça.
— Vovó…
— Estou perguntando porque eu apresentei você à minha neta. — continuou ela, sem nenhum constrangimento. — E até hoje espero um pedido decente.
Valentina riu baixo.
— Vovó…
— Ela não quis. — Lucas respondeu, honesto, coçando a nuca.
A vovó Kato arqueou a sobrancelha.
— Então fez bem. — concluiu. — Homem que sabe esperar costuma saber cuidar.
Lucas piscou, sem saber se agradecia ou se preocupava.
Rafael observava tudo em silêncio, encostado à parede.
A vovó virou-se lentamente para ele.
O olhar não era de surpresa.
Era de avaliação.
— Senhor Montenegro. — disse, com naturalidade.

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