— NÃO!
O som rasgou o ar antes mesmo de virar palavra.
O corpo de Valentina arqueou na cama, os músculos contraídos, a respiração descompassada como se estivesse fugindo de algo que ainda estava ali. O grito saiu inteiro, sem freio, sem consciência — um não que não era pedido, era defesa.
— Não… não… não…
A cabeça se movia de um lado para o outro, negando algo invisível. Os dedos se fecharam no lençol com força demais. O monitor respondeu, acelerado, como se acompanhasse o pânico que não cabia mais dentro dela.
Bip.
Bip.
Bip—bip—bip.
— Valentina! — a voz chegou perto, urgente. — Ei… sou eu. Bianca. Você tá aqui comigo.
Mas Valentina não estava ali.
Ela estava lá.
A lâmpada balançava.
Rangendo.
Rangendo.
O som entrava na cabeça como agulha.
O cheiro vinha primeiro — cigarro, ferrugem, poeira velha. O ar pesado. O gosto metálico na boca. O corpo no chão.
— Acordada ainda?
A voz surgia sempre do mesmo lugar: acima. Dominante. Divertida.
— Cinco horas, madame…
O tempo não existia mais. Só dor acumulada. Só espera. Só o corpo aprendendo a apanhar em silêncio.
— Para de chorar. Ele não vem.
O tapa não vinha com aviso.
Vinha seco.
Rápido.
O mundo virava para o lado.
— Olha pra mim quando eu falo com você.
Valentina tentou se encolher na cama.
No hospital, o corpo repetia o gesto.
— Por favor… — ela chorou, agora em voz alta. — Por favor… não…
Bianca segurou a mão dela, tentando ancorar.
Valentina puxou de volta como se o toque queimasse.
— Eles vão voltar… — murmurou, os olhos fechados com força. — Eles sempre voltam…
O ar não entrava direito. O peito subia e descia rápido demais.
E então—
Tiros.
Secos.
Perto.
O som atravessou o sonho como faca.
— Matem todos. Não deixa ninguém pra contar história.
O corpo de Valentina estremeceu inteiro.
— NÃO!
O grito voltou. Mais alto. Mais quebrado.
Bianca levantou num salto, o coração na garganta.
— Val, olha pra mim! — pediu, quase implorando. — Você tá no hospital. Acabou. Eles não estão aqui.
Mas o medo não escuta explicação.
Valentina chorava como quem ainda apanha.
— Não me deixa… — a voz saiu infantil, irreconhecível. — Não me deixa sozinha…
Bianca virou-se para a porta, desesperada.
— Preciso da médica! — chamou, já saindo. — Agora!
O quarto ficou grande demais.
E vazio.
Foi nesse instante que Rafael entrou.
Ele parou na soleira por um segundo — o suficiente para ver.
Não a mulher firme. Não a advogada afiada. Não a esposa que negociava tudo com distância.
Mas aquela.
Frágil. Desfeita. Perdida dentro do próprio corpo.
O som do choro dela atravessou algo que ele não tinha nome.
Rafael não pensou.
Não calculou.
Não pediu permissão ao contrato, ao orgulho, a nada.
Atravessou o quarto em dois passos e a puxou contra o peito, com cuidado bruto, como se segurasse algo que podia quebrar de vez.
— Shh… — murmurou, a voz baixa, firme. — Eu tô aqui.
Valentina se debateu um instante.
Depois cedeu.
O corpo reconheceu o peso. O calor. O ritmo da respiração.
A mão dela se fechou na camisa dele como se fosse a última coisa real no mundo.

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