Valentina acordou antes do céu clarear por completo.
Não foi o relógio.
Foi o corpo.
Havia um peso estranho no peito, como se o ar tivesse ficado denso demais durante o sono. Ela abriu os olhos devagar, piscando contra a penumbra do quarto que não era o seu.
Demorou alguns segundos para entender onde estava.
O silêncio era diferente. Mais profundo. Mais caro.
E então o cheiro veio.
Masculino. Familiar. Presente demais.
Rafael.
O braço dele ainda repousava sobre sua cintura, frouxo agora, pesado pelo sono profundo. A respiração era irregular, carregada, marcada pelo excesso da noite anterior. Ele dormia como alguém que tinha caído — não como alguém que descansou.
Valentina ficou imóvel.
O coração acelerou num ritmo desconfortável, não por medo, mas por consciência. Aquela posição… aquele contato… aquilo não fazia parte de nenhum acordo.
A lembrança veio em flashes desconexos:
o clube,
a voz dele mais baixa do que nunca,
o carro em silêncio,
o quarto,
o pedido quase infantil — fica.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Nada tinha acontecido.
Mas também nada tinha sido simples.
Com um cuidado quase doloroso, começou a se mover. Primeiro, afastou milímetros do corpo dele. Depois, com a ponta dos dedos, retirou o braço pesado da própria cintura e o apoiou de volta na cama, como se estivesse lidando com algo frágil demais para cair.
Rafael resmungou algo incompreensível e virou o rosto, afundando-o no travesseiro.
Valentina congelou.
Esperou.
O silêncio voltou a se instalar.
Só então se levantou. Pegou os sapatos na mão para não fazer barulho. Olhou para ele uma última vez — deitado de lado, o maxilar relaxado, o rosto sem defesas. Um Rafael que quase ninguém via.
— Isso não pode acontecer de novo… — murmurou, para si mesma.
Saiu do quarto sem acender a luz.
O corredor parecia maior àquela hora. Cada passo ecoava dentro dela mais do que no chão. Ao virar , não percebeu a figura parada próximo à porta lateral.
Mas Clara percebeu.
Ela estava ali havia alguns minutos. Os olhos atentos demais. O corpo rígido demais para uma simples funcionária.
Clara viu Valentina sair do quarto de Rafael.
Descalça.
Cabelos soltos.
O rosto ainda marcado pelo.
Valentina não a viu.
Passou direto, alheia ao olhar que a acompanhava com intensidade silenciosa até desaparecer no corredor que levava aos quartos.
Clara não se moveu.
Não fez barulho.
Não reagiu.
Apenas registrou.
Quando o corredor ficou vazio, ela respirou fundo. Mas algo dentro dela já tinha se deslocado.
Valentina entrou em seu quarto e fechou a porta com cuidado. Encostou-se nela por um segundo a mais do que pretendia.
Levou a mão ao peito.
Vergonha.
Confusão.
Tomou um banho rápido, como se a água pudesse organizar o que a mente ainda não entendia. Vestiu-se com roupas simples, neutras, como se quisesse desaparecer dentro delas.
Quando o dia começou a clarear de vez, ela já estava pronta para descer.
Rafael acordou com a cabeça latejando.
A boca seca. O corpo pesado. Um cansaço que não combinava apenas com álcool. Ele abriu os olhos com dificuldade, piscando contra a luz fraca que entrava pelas cortinas.
Algo estava errado.
Virou-se de lado.
O espaço ao lado da cama estava vazio.
Frio demais para ter sido abandonado há pouco.
Rafael franziu a testa e se sentou devagar. Passou a mão pelo rosto, tentando puxar a memória da noite anterior.
Fragmentos.
Lucas.
Uísque.
Apertou os olhos com força.
Pegou o celular na mesa de cabeceira. Nenhuma mensagem estranha. Nenhuma ligação perdida. Nada fora do comum.
E, ainda assim, algo incomodava.
Levantou-se. Pegou a toalha. Foi direto para o banho, deixando a água fria cair sem piedade, como sempre fazia quando precisava se recompor.
Quando saiu, o quarto já estava diferente.
Tudo organizado. O terno separado. A gravata alinhada. As abotoaduras no lugar exato.
Clara estava ali.
— Bom dia, senhor. — disse, sem erguer demais o olhar.
Rafael passou por ela sem responder. Vestiu-se com a eficiência de quem faz aquilo todos os dias. Para ele, era rotina. Clara fazia parte do funcionamento da casa, nada além disso.
Ajustou o relógio no pulso, pegou o paletó e caminhou em direção à porta.
Sem olhar para trás.

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