"Isabella"
Marco Aurélio não gostava de ser surpreendido. Eu sabia disso antes mesmo de atravessar a porta do escritório. Homens como ele constroem impérios sobre controle e previsibilidade. E nada os desestabiliza mais do que aquilo que foge ao roteiro.
O elemento surpresa era o meu melhor ataque.
Fui anunciada pela secretária, que me lançou um olhar curioso antes de fazer a ligação. Recusei a cadeira e esperei em pé. Aquilo também fazia parte. Augusto não sabia que eu estava no prédio e, quando descobrisse, não demoraria a chegar aos ouvidos certos. As notícias corriam rápido demais pelos corredores. Eu tinha pouco tempo.
— Ela pode entrar — disse a voz do outro lado da linha.
Entrei.
Marco Aurélio estava atrás da mesa, como sempre. Terno impecável. Postura rígida. Um rosto treinado para não revelar nada. Levantou os olhos devagar e me encarou de forma calculada. Não desviei.
— Isabella — disse, sem sorrir. — Não esperava sua visita. Que surpresa.
— Imagino — respondi, fechando a porta atrás de mim. — Também não planejei. Mas você sabe como é… família.
O silêncio se instalou entre nós, pesado. Ele não me convidou a sentar. Eu não pedi. Permaneci ali, de frente para ele, sustentando o olhar.
— Como está a minha filha? — perguntou, por fim.
A pergunta parecia correta. Quase humana. Mas eu conhecia aquele homem. Aquilo não era preocupação.
— Estável. Ainda inspira cuidados, mas fora de perigo. O bebê também. Ícaro está com ela.
Vi o maxilar dele se contrair por um segundo. Um detalhe pequeno. Mas eu vi.
— Fico aliviado — disse. — Apesar de tudo, ela é da família.
Da família.
A palavra sempre soava diferente quando vinha dele. Como se significasse posse, não vínculo.
— É justamente por isso que vim — continuei, com calma. — Família. Sou esposa do seu filho. E hoje de madrugada minha prima me ligou da prisão. Um equívoco, com certeza. Estranho, apenas. Já estamos cuidando disso.
Marco Aurélio entrelaçou os dedos sobre a mesa.
— Seja direta, Isabella. Não tenho muito tempo.
Sorri. Não por gentileza. Por cálculo.
— Claro. Vou ser.
Dei alguns passos pelo escritório, observando os quadros, os prêmios, as fotografias antigas. Tudo ali contava a história de um homem que construiu a própria imagem com obsessão. Reputação era o bem mais valioso que possuía. Mal enterrava uma esposa e já colocava outra no lugar, como se fosse a coisa mais natural do mundo e ainda apagando os rastros da esposa anterior,
— Você não vai atacar a minha prima — disse, sem olhá-lo. — Ela não tem nada a ver com isso. O seu problema é comigo. E com os seus filhos.
— E por que eu faria isso? — retrucou. — O que eu ganharia perdendo tempo com joguinhos envolvendo uma simples garçonete?
O desprezo na voz era afiado.
— Não sei — respondi, virando-me devagar para encará-lo. — Talvez você possa me dizer o que ganha.
Os olhos de Marco Aurélio se estreitaram. A irritação atravessou a máscara por um instante, rápido demais para quem não estivesse atento. Ele ainda mantinha a postura, o controle, mas a irritação era crescente.
E isso era tudo de que eu precisava.
Marco Aurélio recostou-se na cadeira, cruzando os braços. Um gesto defensivo disfarçado de autoridade.
— Você está insinuando coisas perigosas — disse. — E fazendo isso no lugar errado.
— Não estou insinuando nada — respondi. — Só estou observando padrões.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Padrões?
— Pessoas próximas a mim sendo pressionadas. Ameaças veladas. Situações constrangedoras surgindo no momento exato. — Dei de ombros. — Coincidências demais costumam denunciar intenção.
— Você acha que eu organizo prisões agora? — ironizou. — Que manipulo câmeras, policiais, funcionários de boate?
— Não acho nada — falei, com tranquilidade. — Ainda.
A palavra caiu entre nós como um objeto pesado.
O sorriso dele desapareceu por completo.
— Tome cuidado com o que diz — advertiu. — Você é jovem, Isabella. Ainda não entende como as coisas funcionam, está nessa família há poucos meses e acha que sabe o jogar o jogo.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido