"Augusto"
Entramos em casa em silêncio.
Não era um silêncio exatamente desconfortável. Eu podia sentir que havia um acordo implícito entre nós, sem que precisássemos usar palavras, aquela conversa aconteceria ali, na segurança da nossa casa. Longe de olhares curiosos, longe de ouvidos atentos demais.
No carro, eu observava Isabella, concentrada nos próprios pensamentos. Era impossível ignorar o quanto ela tinha mudado em tão pouco tempo. A postura mais firme, o olhar menos ingênuo, a coragem que surgira como uma resposta a tudo que sofreu. Eu admirava aquela ousadia — de verdade —, mas o medo vinha logo atrás. Medo de que ela se precipitasse, de que se colocasse em perigo. Meu pai não era alguém que aceitava desafios. Muito menos vindos dela.
Quando chegamos, observei-a caminhar até o aparador, largar a bolsa sem cuidado e seguir direto para a cozinha, como se estivesse apenas voltando de um dia comum. Como se não tivesse acabado de enfrentar o homem que sempre controlou cada espaço ao redor.
— Por que você foi falar com ele? — perguntei, antes que abrisse a geladeira.
Ela parou no meio do movimento.
Não se virou de imediato. Ficou ali, de costas para mim, as mãos apoiadas na porta de inox, respirando fundo. Por um instante, achei que não responderia. Quando falou, a voz saiu firme, decidida demais para alguém que fingia normalidade.
— Porque eu precisava.
Fechou a geladeira sem pegar nada e se virou devagar.
— Precisava de quê, exatamente? — perguntei, sentindo a irritação crescer. — Você sabe como ele é, Isabella. Sabe o tipo de reação que provoca.
Ela cruzou os braços, erguendo o queixo. O olhar estava decidido, quase desafiador.
— Justamente por isso. Eu não ia ficar esperando o próximo movimento dele. Não ia ficar encolhida, me escondendo, achando que ele ia mandar e eu obedecer. — A voz ganhou força. — Eu precisava olhar nos olhos dele e dizer para ficar longe da minha família. Eu me recuso a me deixar intimidar. Tenho certeza que o que aconteceu com a Camila foi culpa dele.
Dei dois passos em sua direção.
— Você foi até o território dele sozinha.
— Não sozinha — corrigiu, sem hesitar. — Eu sou sua esposa.
Esposa.
A palavra caiu entre nós com um peso inesperado. Não porque eu discordasse, mas porque Isabella a usava como escudo e espada ao mesmo tempo. Como se aquele vínculo fosse suficiente para enfrentar qualquer coisa. Qualquer pessoa.
Passei a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.
— Você foi lá para mostrar que não tem medo — eu disse, mais como constatação do que pergunta.
— Fui.
— Só isso?
Ela sustentou meu olhar por tempo demais.
Eu conhecia aquele silêncio. Conhecia aquele jeito específico de escolher o que dizer… e, principalmente, o que guardar. Era algo novo em Isabella.
— Eu precisava que ele entendesse com quem está mexendo — respondeu, por fim. — Eu não sou a garota tonta que todo mundo ameaça, engana e rouba.
— E você acha que confrontá-lo assim resolve? — retruquei. Ninguém enfrentava meu pai. Nem eu. No máximo, desobedecia algumas ordens para depois fazer as coisas do meu jeito — e ainda assim, jamais de forma direta. Aquilo não chegava a ser um desafio.
— Resolve comigo — rebateu. — Resolve dentro de mim.
A resposta era honesta. Eu sentia isso.
Ainda assim, algo não fechava.
— Eu vi o olhar dele — insisti. — Vi quando ele perdeu o controle. Aquilo não acontece sem motivo. Você disse alguma coisa que não está me contando.
Ela respirou fundo. Um suspiro lento, calculado. Eu conseguia ver com clareza que Isabella estava omitindo detalhes.
— Eu disse o suficiente.
Eu podia pressionar. Podia insistir, exigir respostas, tentar arrancar dela o que estava escondendo. Mas não faria isso. Se ela não queria falar, havia um motivo. E eu tinha certeza de que me contaria quando julgasse ser o momento certo.
Mesmo assim, era incômodo ficar no escuro. Não saber exatamente o que se passava na cabeça dela.
— Isabella…
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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido