"Augusto"
Quando o advogado disse que eu precisava ir mais uma vez à delegacia, senti apenas cansaço. Cada vez que o celular tocava, eu já imaginava que aquele seria o comunicado.
Era um desgaste que não se resolvia com descanso. Eu já tinha contado tudo. Já tinha respondido às mesmas perguntas de maneiras diferentes, recontado a mesma história, repetido datas, horários, decisões. Ainda assim, lá estava eu de novo, sendo chamado — a prova de que, para eles, eu continuava sendo o suspeito final.
Isabella quis ir comigo, mas não deixei. Não era ambiente para ela e, no fundo, além da proteção, havia vergonha. Eu não queria que ela visse, mais uma vez, o quanto aquilo me diminuía, o quanto destruía a minha reputação.
No caminho até a delegacia, o advogado falava sobre estratégia, possibilidades, sobre como a coletiva daquela tarde poderia encerrar tudo. Eu ouvia, mas não absorvia. Já tinha aprendido que palavras bonitas não significavam nada. Existia, sim, a possibilidade — ainda que remota — de eu ser preso. E então teria de provar minha inocência diante de um júri.
Quase podia ouvir meu pai rindo, ecoando do inferno, me atormentando.
Na delegacia, fui conduzido à mesma sala. A mesma mesa. A mesma cadeira dura. O mesmo delegado entrou, dessa vez com uma pasta grossa nas mãos. A investigação, enfim, parecia ganhar forma.
— Precisamos esclarecer alguns pontos antes da coletiva — disse ele, sem rodeios.
Assenti.
Vieram as perguntas. As mesmas, com pequenas variações, como se estivessem testando minha memória ou minha paciência. Falaram de Karina, de Enzo, das mensagens, da maldita tentativa de chantagem.
Quando mencionou Isabella, algo apertou no meu peito.
— O senhor entende que a decisão de se encontrar com Karina pode ser interpretada como imprudente… e até como uma admissão de culpa — disse o delegado.
— Entendo que foi apenas um momento de desespero da minha mulher — respondi.
Ele me observou por segundos longos demais.
— O senhor mantém tudo o que disse nos depoimentos anteriores?
— Claro que mantenho. É a verdade. Não tenho nada a ver com isso. Não conspirei para matar meu pai.
Houve um silêncio pesado. Então o delegado fechou a pasta.
— Bem, passamos os últimos dias analisando a história da secretária e, de fato, não encontramos nada que indique sua participação no caso. Ela confessou que as provas que dizia ter eram apenas um blefe, e a foto que enviou para sua esposa foi manipulada. O senhor está liberado… por ora.
— Por ora? — repeti. — O senhor acabou de dizer que não encontrou nada a meu respeito.
— Nunca se sabe — respondeu, sem alterar o tom. — Não podemos descartar nada de forma definitiva.
Eu estava a ponto de perder a cabeça quando o advogado segurou meu braço em um sinal claro de advertência. Não havia mais nada a discutir ali.
Voltei para casa e encontrei Isabella na sala, assistindo à televisão. A coletiva estava prestes a começar. O advogado já tinha me contado tudo, mas eu queria ver. Queria ouvir o que seria dito.
O delegado apareceu diante das câmeras com a mesma expressão neutra de sempre e iniciou a narrativa. Começou por Enzo — uma longa história de vingança, a tentativa de homicídio contra César, a fuga, até culminar no tiro fatal. Depois veio Karina. O delegado não poupou o discurso: falou da chantagem, do contato com Enzo por medo, do bebê que passaria por exame de DNA. A história foi confirmada, sem qualquer indício de outro participante.

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