— Tem mais uma coisa... Espero que me perdoe, eu devia ter falado antes, mas não queria me intrometer — Daniela falou torcendo as mãos parecendo nervosa.
— Você já sabia do caso do Carlos com a minha irmã?
— Não. Isso realmente foi uma surpresa. Mas tenho quase certeza de que ele também tinha um caso com a recepcionista. Quando você saía mais cedo, ele logo me mandava embora, e ela entrava na sala dele.
Pelo jeito, eu era mais idiota do que pensava. Se isso fosse verdade, significava que Karen também tinha sido traída — afinal, a recepcionista já trabalhava lá havia um ano.
— O que aconteceu com ela? — perguntei.
— A Karen mandou embora na única vez que veio aqui. Mas não é só isso... não sei se é verdade, mas depois de tudo o que aconteceu, dá pra presumir que sim. A fofoca que rolava pelo pessoal do prédio era que Carlos sempre teve vários casos. A Ana jurava que ele só ficou com você por causa da empresa. Mas isso tudo era apenas fofoca — respondeu Daniela, sem graça.
Ana tinha sido uma funcionária antiga, era advogada, cuidava dos contratos, e se demitiu meses depois que meus pais morreram no acidente de carro. Ou seja, ela estava lá quando Carlos começou a trabalhar na empresa e quando nós começamos a namorar. Talvez eu precisasse encontrá-la e conversar sobre o passado.
— Quais são os projetos em andamento e os que estão em fase de orçamento? — perguntei, mudando de assunto. Precisava manter o foco.
Daniela me olhou assustada. Uma coisa era compartilhar fofocas, outra bem diferente era me passar informações confidenciais da empresa.
— Não precisa se preocupar — falei calma. — Pretendo pagar muito bem para me manter atualizada e... me ajudar.
— Ajudar?
— Eu pretendo reaver a empresa.
— Como?
— Destruindo a empresa. Calma — acrescentei, vendo o choque no rosto dela. — Não vou te deixar sem emprego. Quero apenas os arquivos para analisar os pontos fracos. E outra coisa: preciso saber se a empreiteira do Fabrício ainda é a concorrente mais forte.
— Claro. O Carlos sempre grita quando perde um contrato para eles. Mas tem um cara novo que está dando dor de cabeça. Não sei o nome, só que a empresa se chama Dois Irmãos. Está crescendo no mercado, o suficiente para o Carlos gritar ainda mais.
— O Carlos não grita — falei automaticamente. Em todos aqueles anos, nunca o vi levantar a voz dentro do escritório. Ele sempre parecia controlado. Era estranho ouvir isso.
— Não na sua frente — respondeu Daniela.
Ela me enviou cópias dos arquivos para eu analisar. Claro que estava assustada e com razão. Mas eu não tinha interesse algum em prejudicá-la. Pelo contrário, pretendia ajudá-la financeiramente e, no futuro, conseguir uma posição melhor para ela. Daniela era uma profissional muito competente.
No fundo, eu ainda esperava descobrir que Carlos não era tão ruim quanto parecia... mas era pior. Agora, olhando para trás, via os sinais o tempo todo. Eu só não quis enxergar. Estava apaixonada, acreditava com todas as forças que ele era minha família e que tudo de ruim que vinha acontecendo era passageiro, que tudo se resolveria quando nossa família estivesse completa.
Agora eu estava no carro, pesquisando informações sobre a Dois Irmãos. A empresa funcionava na garagem de uma casa grande, mais afastada do centro da cidade. Através do vidro dava para ver que era um escritório pequeno com espaço para duas mesas. Toquei a campanhia.
Um homem veio me atender, imaginei que fosse o dono. Parecia mal-humorado, vestia uma camisa xadrez, tinha barba grande e o cabelo preto preso num coque. Era um homem bonito, e os olhos azuis provavelmente deixava as mulheres hipnotizadas.
— Pois não? — perguntou, com um tom rude.
— É assim que você atende os clientes? — retruquei.
— A moça quer me ensinar a atender meus clientes?
— Não precisa ser grosseiro.
— Não estou sendo.
— Está sim, pai! — interrompeu uma voz doce. — Oi, tudo bem? Meu nome é Valentina. Sou eu que atendo os clientes. Esse é o Ícaro, meu pai. — Uma mocinha sorridente apareceu, estendendo a mão. Devia ter, no máximo, dezoito anos.
— Prazer — respondi.
— Em que posso ajudar? Quer um café? — perguntou ela, prestativa, enquanto o pai se sentava com uma expressão ranzinza.
— Um café, por favor. E também quero fazer uma proposta — falei, sentando na cadeira de plástico.

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