"Júlia"
O cheiro de fumaça ainda parecia grudado à minha pele, mas eu sabia que era apenas imaginação, coisa da minha cabeça.
Dias depois do incêndio, ainda conseguia sentir a lembrança daquelas chamas sempre que fechava os olhos, mas a vida continuava, e eu precisava dar as minhas aulas e seguir com as apresentações.
Passar em frente à Lush me deixava deprimida. O lugar agora estava destruído, isolado por tapumes e fitas de interdição, e a cidade ainda comentava o atentado. Era uma pena, já que tinha sido um ótimo lugar para me apresentar.
A proposta ali era a diversão, nem diferente de outros lugares.
Terminei de prender o cabelo diante do espelho estreito do camarim improvisado, ajustando a alça do macacão preto e rosa que deixava as pernas à mostra.
A porta se abriu e Fabrício entrou com a expressão carregada.
— Você não deveria estar aqui — resmungou com uma careta bonitinha.
Olhei meu reflexo no espelho enquanto passava o lápis nos olhos.
— Engraçado, porque foi você mesmo quem conseguiu esse bico para mim.
Ele passou a mão pelos cabelos, e não consegui evitar pensar no quanto o achava fofo se preocupando comigo, mas jamais admitiria uma coisa dessas. Fabrício era apenas um caso ocasional. Fofo, mas ocasional.
— Não imaginei que você voltaria a trabalhar tão rápido assim. Não é perigoso? Você nem se recuperou totalmente ainda.
— Estou ótima, mon cher. Fiquei três dias parada, e isso já é muita coisa. Você sabe que eu não tenho esse luxo.
Ele se aproximou, abraçando minha cintura.
— Me preocupo com você, me avisa se sentir alguma coisa.
Sorri, sentindo o calor do corpo dele.
— Pode deixar. Vai ser uma apresentação rápida, só para fazer a abertura. Depois, as meninas ocupam o resto da noite.
Fabrício hesitou por um momento. Podia jurar que havia um pouco de medo no olhar dele, para além da preocupação.
— Esse lugar… — ele começou, abaixando a voz — não é como a Lush. Aqui vem gente perigosa, acontecem coisas que é melhor não comentar fora daqui.
Soltei uma risada curta. Eu já conhecia bem aquele tipo de lugar.
— Gente perigosa é que mais tem em lugares como esse. Relaxa não é a minha primeira vez, se eu te contar os lugares que já pisei, você não acreditar.
— Eu sei, mas, mesmo assim, é bom não olhar para ninguém.
— Você está se assustando à toa.
— Estou tentando te proteger.
— Calma, gato. Vai dar tudo certo.
O silêncio caiu entre nós enquanto eu terminava de ajeitar a maquiagem. Não conhecia Fabrício há tanto tempo assim, mas dava para perceber quando ele escondia alguma coisa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido
Ta demorando muito,um capítulo so por dia é extremamente pouco, da vontade de largar....
Até o capítulo 142, pularam alguns capítulos, agora vai p o 224...
Perfeito!...