Capítulo 132 — Não quero meias palavras
Lucas Avery
Eu devia ter calculado melhor o impacto daquela bomba. Devia ter preparado o terreno com calma, dosado as informações antes de simplesmente soltar o nome dos Bowers no meio do escritório.
Mas ver a frieza do Adrian me cobrando respostas imediatas, combinada com a ligação ameaçadora da Diana minutos antes, fez o meu raciocínio agir no puro impulso da urgência.
Quando o copo estilhaçou na parede e o Adrian avançou cego de ódio contra a alvenaria, um medo visceral e real gelou a minha espinha: o pavor de que toda a dor acumulada por anos fizesse o meu irmão se voltar contra mim outra vez.
O Adrian descontrolado era uma força da natureza destrutiva, capaz de passar por cima de qualquer um que cruzasse o seu caminho sem medir as consequências.
E, para piorar o turbilhão na minha cabeça, havia a Natalie.
Eu sabia perfeitamente que a minha mulher não deixaria aquela cena passar em branco. Ela ia me questionar, ia pressionar, ia insistir até arrancar a última gota da verdade de dentro do meu peito.
Só que a perda do avô ainda era uma ferida aberta e recente na alma dela. Tudo o que eu menos queria neste mundo era remexer em uma dor que levou mais de uma década para cicatrizar: a tragédia brutal que roubou os pais dela ainda na infância.
Assim que o Adrian e a Victoria subiram a escadaria abraçados, segui com o restante do grupo pelo corredor em direção à sala principal.
O senhor Victor nos aguardava de pé, com o semblante tenso e os olhos azuis cheios de questionamentos silenciosos. Ao lado dele, a Maria observava a movimentação com as mãos postas em frente ao avental, preocupada com o clima pesado que tomou conta da casa.
— Agora que o meu neto e a esposa já se recolheram — o velho começou, a voz grave e imponente quebrando o silêncio da sala — Vocês vão me fazer o favor de explicar exatamente o que aconteceu dentro daquela biblioteca.
Henry, Augustus e eu nos entreolhamos em uma fração de segundo, medindo mentalmente o quanto podíamos expor sem causar um colapso familiar. Dei um passo à frente, assumindo a responsabilidade da resposta.
— O Adrian descobriu algo muito grave a respeito do nosso passado, senhor Victor. Eu precisei repassar uma informação recente para ele e... Isso acabou mexendo com feridas profundas demais.
O senhor Victor não piscou. Ele sustentou o meu olhar com uma frieza experiente, soltando o ar devagar pelas narinas antes de me surpreender com a resposta.
— Eu já até imagino o que tenha sido, Lucas.
Franzi o cenho, confuso com a aparente falta de surpresa do patriarca.
— O senhor imagina?
O velho Foley ajeitou o corpo e olhou para a grande janela da sala, o olhar se perdendo nas copas das árvores do jardim.
— Existem certas marcas na vida, meu rapaz, em que é melhor não ficarmos cutucando. Quando uma ferida finalmente fecha e vira cicatriz, insistir em reabrir o corte não traz justiça nenhuma, só traz mais sangue e sofrimento. O que causou o estrago no passado não pode ser alterado por ninguém. A marca foi cravada na nossa história, e tudo o que nos resta é olhar para ela, aceitar a nossa dor e entender que o tempo passou. Nada do que vocês fizerem hoje vai trazer meu filho de volta.
As palavras do senhor Victor caíram sobre a sala como um manto pesado de sabedoria e resignação amarga. Ele não citou nomes, não mencionou os Bowers, mas a postura dele deixou claro que ele conhecia a podridão daquele mundo muito melhor do que nós quatro juntos.
O velho limpou a garganta, retomando a postura ereta de sempre.
— Eu vou me recolher para a suíte com a Marie. A Maria já está providenciando uma equipe de limpeza para consertar os estragos da parede e recolher os vidros da biblioteca. Tenham um bom descanso.
— Obrigado, senhor Victor — respondi com respeito.
Henry deu dois passos na minha direção, colocando a mão no meu ombro com firmeza.
— Lucas, o Augustus e eu estamos indo embora. O clima ficou pesado demais e é melhor dar espaço para o Adrian assimilar tudo com a Victoria no quarto. Amanhã bem cedo, conversamos com ele, e vemos no que podemos ajudar.
— Acho a melhor decisão, Henry — concordei, apertando o antebraço do meu amigo. — Obrigado por segurarem as pontas lá na biblioteca.
Natalie se aproximou da Sara e do Willian, trocando abraços carinhosos de despedida.
— Qualquer coisa que você ou a Vic precisarem, me liga, tá bom? — Sara murmurou, beijando a bochecha da Nat com afeto.
— Pode deixar, Sara. — Natalie respondeu, tentando manter a voz estável.
— Se eu soubesse que a vida em São Francisco era tão agitada, teria vindo para cá antes. — Willian brincou em tom baixo, conseguindo arrancar um riso frouxo da Natalie e quebrando a tensão do momento.
— Willian, dá uma segurada nos seus comentários. — Augustus repreendeu o namorado.
— E eu disse algo errado? Ontem eu fui ninja com o Lucas para salvar o Adrian, segurei a vaca para a minha amiga extravasar e hoje… — Will faz uma pausa. — Nem vou comentar.
Augustus puxou o namorado pela cintura.
— Pelo amor de Deus, só vamos embora.
Todo mundo riu da interação deles, assim que as despedidas se encerraram os quatro caminharam juntos até a saída, deixando apenas a mim e a Natalie na imensidão daquela sala de estar silenciosa.

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