Capítulo 175 — Linhas Vermelhas
Adrian Foley
A claridade da manhã invadia a suíte com suavidade pelas frestas das cortinas. Abri os olhos devagar, sentindo o peso gostoso do corpo da Victoria aninhado contra o meu peito. A respiração dela continuava profunda e compassada, o rosto relaxado enterrado na curva do meu pescoço, imersa em um sono que parecia finalmente restaurador depois do turbilhão da noite anterior.
Fiquei imóvel por alguns minutos, apenas apreciando aquele silêncio raro. Deslizei a mão direita com extrema lentidão até pousar sobre a sua barriga. Pensar que ali dentro se formava a extensão da nossa vida me dava uma coragem visceral, mas também deixava a minha guarda em estado de alerta permanente.
Com muito cuidado, afastei o edredom e me desvencilhei do abraço dela sem acordá-la. Vic apenas murmurou algo incompreensível, abraçando o travesseiro onde a minha cabeça estava segundos antes. Sorri de canto, me curvei e deixei um beijo demorado na têmpora dela antes de seguir para o banheiro.
Tomei um banho quente, fiz a barba e vesti um terno chumbo sob medida, combinando com uma camisa branca impecável e gravata de seda escura. Quando saí do closet ajustando o relógio de pulso, encontrei Victoria piscando devagar, tentando se acostumar com a luz. Os cabelos castanhos estavam deliciosamente desgrenhados sobre os travesseiros.
Caminhei até a beirada da cama, apoiei o joelho no colchão e segurei o rosto dela entre as minhas mãos, deixando um selinho carinhoso nos lábios entreabertos.
— Bom dia, meu amor.
— Bom dia... — a voz dela saiu arrastada, rouca de sono. Ela piscou para o meu terno e fez um bico manhoso. — Já vai? Que horas são?
— Quase oito e meia. Preciso descer para a holding e resolver a pendência daquele contrato alemão de uma vez por todas. — Olhei fundo nos olhos castanhos dela, adotando um tom firme, mas carregado de carinho. — E sobre você... eu quero uma promessa solene aqui agora.
Victoria ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o edredom.
— Que promessa, senhor Foley?
— Repouso absoluto hoje. Nada de inventar moda pela casa, nada de descer escadas correndo ou querer organizar coisas. O Patrick foi bem claro sobre a sua pressão e o repouso. Se você sentir a menor tontura, o menor enjoo ou qualquer pontada diferente que seja... você me liga na mesma hora. Sem tentar bancar a heroína, sem tentar me poupar de preocupação. Estamos combinados?
Ela suspirou, mas o brilho doce no olhar entregava que ela entendia a minha angústia.
— Combinado, Ade. Eu prometo. Vou ficar quietinha, ler um livro, conversar com as meninas e tomar os remédios nos horários certos.
— Obrigado, vida. — Abracei o corpo dela por cima das cobertas, respirando o seu cheiro doce antes de me levantar. — Eu te amo infinitamente.
— Também te amo. Vem almoçar comigo?
— Com toda a certeza. — respondi dando nela um último beijo antes de sair.
Desci a escadaria encontrando a mansão já em pleno funcionamento. O aroma de café fresco e pães quentes dominava o ar da sala de jantar. Ao redor da mesa farta, a movimentação era digna de uma base militar operando em harmonia familiar: Evie estava sentada com a pequena Rachel no colo, oferecendo pedacinhos de frutas para a filha, enquanto Catharina, Lyu e Aline conversavam animadas sobre as amenidades da cidade.
Parei na entrada da sala e me aproximei da mesa:
— Bom dia a todos.
— Bom dia! — Evie respondeu com aquele sorriso expansivo de sempre. — Juro que pensei que depois de ontem vocês dormiriam todos até meio-dia. — Sorri de lado.
— Bem queria, Evie, mas tenho uma holding para comandar. — me servi de um café preto antes de me dirigir a elas. — Meninas, por favor... fiquem de olho na Vic hoje. Vocês sabem como ela é teimosa quando quer parecer bem. Ela prometeu repousar, mas conheço a minha mulher. Qualquer alteração, qualquer oscilação de cor ou pressão, me avisem no mesmo segundo.
Evie deu uma risadinha suave, ajeitando a filha no colo.
— Pode ir trabalhar em paz, Adrian. Comigo, e a minha nata aqui, a sua esposa vai ser tratada como uma rainha. A gente amarra aquela mulher na cama se ela tentar levantar para aprontar qualquer coisa. Ela está em ótimas mãos.
Soltei o ar com um sorriso aliviado.
— Não tenho a menor dúvida disso, Evie. Muito obrigado de verdade.
Me despedi das mulheres e segui pelo corredor que dava acesso ao escritório privativo do piso térreo. A porta estava entreaberta e o clima ali dentro era de pura concentração tática. Alexander estava em pé diante do computador, rodeado por Thomas, Chen e Andrew.

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