Capítulo 181 — O Amor que Esperou
Victoria Foley
A mansão Foley parecia ter sido atingida por um furacão de rendas, flores brancas, caixas de sapatos finos e um aroma inebriante de laranjeira com baunilha.
Desde as primeiras horas da manhã, o piso superior fervilhava em uma correria deliciosa. Maquiadores entravam e saíam, cerimonialistas conferiam pranchetas no corredor e a voz do Vovô Victor ecoava da ala leste a cada vinte minutos, reclamando em altos brados de que o alfaiate italiano havia colocado goma demais no colarinho da sua camisa e que ele se recusava terminantemente a parecer um "pinguim engessado" no próprio casamento.
Do outro lado do corredor, no entanto, dentro da suíte de hóspedes principal, o mundo parecia se mover em câmera lenta.
Tia Marie estava parada em frente ao espelho. O vestido de noiva era de uma elegância atemporal: um modelo em tom marfim suave, de crepe de seda estruturado, com mangas compridas de renda francesa delicada e um decote canoa que valorizava a postura altiva e graciosa dela.
Os cabelos grisalhos, sempre presos em coques práticos no dia a dia, estavam artisticamente alinhados em um penteado clássico com pequenos pontos de luz.
Ela parecia uma rainha. Uma mulher madura, com as marcas suaves da vida ao redor dos olhos e dos lábios, mas com um brilho no olhar que eu nunca, em vinte e tantos anos, havia visto nela.
Aline e Evie tinham acabado de descer para fiscalizar a chegada dos últimos arranjos no jardim e levar as daminhas para o andar de baixo, deixando a suíte finalmente em silêncio.
Me aproximei devagar, meu vestido longo em tom verde-oliva desenhava com carinho a curva arredondada da minha barriga, e apoiei uma das mãos no ventre por puro hábito.
Parei logo atrás da minha tia. Nossos olhares se encontraram pelo reflexo do espelho.
Os olhos da Marie marejaram no mesmo segundo. Os lábios dela tremeram de leve ao me ver ali, em pé, observando-a.
— Vic... — ela sussurrou, levando a mão com anel solitário ao peito. — Meu Deus, olha para você... A minha menina vai ser mãe. E olhe para mim, parecendo uma velha querendo brincar de noiva aos sessenta anos.
— Para com isso, tia — falei com a voz já embargada, sentindo a garganta apertar com um nó apertado de emoção. — A senhora é a noiva mais linda que este mundo já viu. O vovô vai simplesmente perder a fala quando colocar os olhos na senhora lá no altar.
Marie deu uma risadinha entrecortada, tentando abanar o rosto com as mãos para não estragar a maquiagem leve.
— O Victor perde a fala com qualquer coisa ultimamente, minha filha. Ele passou a semana inteira fingindo que estava calmo, mas ontem à noite quase teve um treco porque o florista trocou o tom das peônias. Aquele homem é uma peça rara.
Sorri, mas conforme continuei encarando o reflexo da mulher que foi o meu esteio durante a vida inteira, o peso das memórias começou a transbordar dentro do meu peito.
Me lembrei dos dias escuros após o acidente que levou os meus pais. Da menina assustada que eu era, encolhida em um canto com uma malinha surrada de roupas. Me lembrei da tia Marie, já com mais de quarenta anos, solteira, com a sua rotina estruturada, abrindo mão de qualquer projeto pessoal para me acolher debaixo das suas asas.
Me lembrei das noites em que ela costurava para fora até às duas da madrugada para pagar os meus livros da escola, dos fins de semana em que ela recusava convites de amigas porque precisava me levar ao médico ou me ajudar com a lição de casa. Ela nunca reclamou. Nunca jogou nada na minha cara.
Mas eu cresci com uma dorzinha surda, cravada no fundo da alma, acreditando que a minha presença havia roubado sua liberdade e a chance de ela construir a própria família.
Dei mais meio passo à frente e pousei as minhas mãos com delicadeza sobre os ombros dela.
— Tia... — minha voz falhou, quebrando-se em um sussurro cru. — Posso te falar uma coisa do fundo do meu coração?
Marie virou o corpo devagar para me encarar de frente. Ela segurou as minhas mãos entre as dela, sentindo o leve tremor dos meus dedos. O olhar dela ficou atento, maternal e infinito.
— O que foi, meu amor? Você está sentindo alguma dor? O bebê...
— Não, não é o bebê. Está tudo perfeito com ele — engoli em seco, as primeiras lágrimas teimosas escapando dos meus olhos. — É sobre nós duas. Durante muitos anos... na verdade, durante a minha vida quase inteira, eu carreguei uma culpa que nunca tive coragem de colocar em palavras.
Marie franziu a testa, surpresa.
— Culpa, Victoria? Do que você está falando?
— A senhora já tinha a sua vida, a sua paz, os seus planos. E de repente, teve que abrir mão de tudo para ser mãe de uma garotinha quebrada pelo luto. A senhora trabalhou dobrado, não viajou, não namorou, não viveu para si mesma por mais de vinte anos só para me dar um futuro. Eu sempre achei... lá no fundo, eu sempre achei que tinha tirado de você a chance de se casar, de ter uma família e de ser verdadeiramente feliz.
O silêncio que se instalou entre nós foi quebrado apenas pelo som da minha respiração trêmula.
Marie arregalou os olhos marejados e levou as duas mãos ao meu rosto. As palmas dela, mornas e acolhedoras, seguraram as minhas bochechas com uma firmeza tão doce e apaixonada que me fez soluçar baixinho.

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