Capítulo 185 — Sombras na Filial
Sara Olsen
Depois do casamento inesquecível do senhor Victor e da Tia Marie. Era hora de voltar à rotina, e começar a semana na filial da Foley.
Me acomodei na minha cadeira e olhei ao redor. Minha mesa ficava estrategicamente posicionada na ante-sala da diretoria geral, logo em frente à porta dupla de madeira clara que dava acesso ao gabinete do William, e a poucos metros do corredor envidraçado reservado para a comitiva técnica do consórcio bávaro.
Ajeitei o blazer risca-de-giz sobre o vestido preto, puxei a respiração bem fundo e comecei a checar a fila de e-mails prioritários.
— Bom dia, flor do dia! — a porta do gabinete se escancarou e William surgiu em toda a sua glória matinal, segurando um copo térmico prateado. — Se eu não tiver pelo menos três contratos para assinar e quatro planilhas com números verdes até às dez da manhã, eu juro que peço transferência de volta para a holding do Ade. A matriz tinha muito mais emoção e fofoca corporativa. Aqui está silencioso demais para o meu gosto refinado.
Soltei uma risada baixa, sem desviar os olhos do monitor.
— Bom dia, senhor diretor. Pode tirar o cavalinho da chuva. O Adrian e o Augustus me mandaram logo cedo um arquivo de quarenta e duas páginas com diretrizes de conformidade jurídica para as frotas portuárias. Nós temos reunião com o departamento de engenharia às onze e precisamos validar o cronograma da auditoria antes do meio-dia.
William parou diante da minha mesa, apoiou uma das mãos na cintura e fez uma expressão de puro horror fingido.
— Quarenta e duas páginas? Em uma segunda-feira pós-casamento? Meu Deus, o Augustus não tem piedade da minha juventude nem quando dorme na mesma cama que eu. Aquele homem é uma máquina sem sentimentos alimentada por jurisprudência e códigos civis. Mas tudo bem, eu assumo o sacrifício em nome do meu salário estratosférico e do meu novo cartão corporativo black.
— Vai trabalhar, Will — respondi, apontando a caneta para a sala dele com um sorriso cúmplice. — E vê se não enrola com as assinaturas das procurações, porque o cartório mandou o estafeta recolher às duas.
— Já estou indo, capitã! Se algum alemão aparecer com papo furado ou querendo aprovar despesa de hotel cinco estrelas sem recibo fiscal, chuta a canela dele com esse salto agulha! — William piscou de forma debochada. — E antes de ir preciso dizer, tô orgulhoso de você Sarinha. A Vic tinha razão, você é uma das mulheres mais inteligentes e dedicadas que eu conheço. E está arrasando demais nessa sua nova função.
— Obrigada Will… — falei sentindo meu rosto esquentar pelo elogio.
— Agora me deixa ir porque antes de ler as quarenta e duas páginas que meu namorado sem coração me mandou, vou ligar pra ele cobrando no mínimo um eu te amo, com direito a um almoço em um Michelin. — ele girou nos calcanhares, fechando a porta da diretoria logo em seguida.
Balancei a cabeça, divertida com a energia inabalável do meu amigo. Trabalhar ao lado do William sempre tornava o expediente mais leve, mas eu sabia muito bem que a nossa presença ali tinha uma função muito mais séria do que simplesmente despachar rotinas burocráticas: nós éramos os olhos e os ouvidos da holding para vigiar os passos do grupo europeu.
Voltei a me concentrar nas minutas contratuais. Dez minutos depois, o clique suave da porta de vidro da ala lateral soou no corredor. Ergui os olhos e vi Luka Weber se aproximar com passos lentos e elegantes.
O engenheiro-chefe alemão vestia um terno azul-marinho de corte europeu impecável, sem gravata, e exibia aquele sorriso perfeitamente alinhado de quem sabia o efeito que causava. Os cabelos loiros estavam penteados para trás com precisão milimétrica, e os olhos claros varriam a ante-sala com uma curiosidade nada ingênua.
Na mão direita, ele equilibrava dois copos de papel de uma cafeteria gourmet conceituada que ficava no piso térreo do edifício.
— Guten Morgen, senhorita Olsen — Weber parou do outro lado da minha bancada de madeira, mantendo uma distância polida, mas com o corpo ligeiramente inclinado para a frente. O sotaque carregado trazia um tom macio, quase melodioso. — Espero não estar interrompendo uma análise de extrema relevância financeira logo na primeira hora do dia.
Pousei a caneta de volta no suporte de metal, adotando a minha postura mais profissional e inexpressiva.
— Bom dia, senhor Weber. De forma alguma. A equipe técnica já conseguiu sincronizar o acesso aos servidores das filiais secundárias?
— Quase tudo operacional — ele respondeu com calma, depositando um dos copos com cuidado sobre a lateral da minha mesa, a uma distância segura dos meus documentos. — Os auditores terminaram o espelhamento das primeiras rotas logísticas agora há pouco. Mas, antes de nos enterrarmos em relatórios intermináveis de toneladas e fretes marítimos, tomei a liberdade de trazer algo para aquecer a manhã. É um macchiato duplo com um toque sutil de avelã tostada. Reparei na última vez que nos vimos que a senhorita evitou o café comum e preferiu bebidas mais suaves.
Encarei o copo fumegante por dois segundos inteiros antes de erguer os olhos diretamente para o rosto dele. A gentileza parecia genuína à primeira vista, mas o excesso de atenção vindo de um homem que na noite do jantar já havia demonstrado um interesse inconveniente me deixava imediatamente em alerta máximo.
— Muito obrigada pela gentileza, senhor Weber — falei com um tom neutro, sem tocar no copo. — Mas eu já tomei meu café em casa antes de sair. De qualquer forma, agradeço a consideração. Sobre os relatórios do espelhamento, o senhor pode encaminhar os arquivos criptografados direto para o e-mail da diretoria administrativa. O William e eu vamos analisar tudo antes da reunião das onze.
Luka soltou uma risadinha suave, apoiando o cotovelo na borda da divisória de vidro com uma familiaridade que começou a me incomodar.
— A senhorita é incrivelmente dedicada, Sara. E extremamente formal. Não precisa me chamar de senhor Weber a todo instante. Trabalharemos lado a lado pelos próximos meses até que a transição completa dos ativos seja concluída. "Luka" soa muito mais amigável, não acha?
— A política interna da Holding preza pelo tratamento estritamente formal durante o horário de expediente e na condução de auditorias externas, senhor Weber. — rebati com firmeza, mantendo o tom educado, mas cortando qualquer abertura para intimidades. — É uma medida padrão de governança para evitar ruídos entre os comitês.
O alemão ergueu as sobrancelhas com uma expressão de sincera admiração, longe de se dar por vencido.


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