Capítulo 186 — O Fio da Navalha
Henry Reeves
O som da minha própria voz cortando o ar daquela ante-sala soou como o gatilho engatilhado de um fuzil.
Parei no meio do carpete, cravando os olhos na mão daquele desgraçado a poucos centímetros do corpo da Sara. Minha mandíbula travou com tanta força que o estalo dos dentes ecoou na minha própria cabeça. O sangue fervia sob a minha pele, pulsando nas têmporas em um ritmo violento.
Eu passei o dia inteiro trancado no quadragésimo andar da holding, despachando ordens com o Adrian, mas com a cabeça enfiada nesta porra de filial. Contei os minutos para o relógio bater seis horas e poder descer até aqui.
E a primeira imagem que recebo ao atravessar as portas de vidro é a de um bastardo da Baviera debruçado sobre a mesa da minha mulher, curvado feito um abutre prestes a dar o bote.
Luka Weber recolheu o braço com uma lentidão calculada, ajeitando a postura. Ele não parecia assustado, apenas surpreso, exibindo aquela frieza europeia polida que só serviu para atiçar ainda mais a minha vontade de estraçalhar a cara dele contra a divisória de vidro.
— Herr Reeves... boa noite — o alemão soltou, abrindo um sorriso tênue e profissional, sem vacilar no tom. — De forma alguma está atrapalhando. Estávamos apenas alinhando a última via do cronograma de docas antes de encerrar o expediente.
Dei dois passos lentos e pesados na direção da bancada, as mãos ainda afundadas nos bolsos da calça social, os ombros largos bloqueando a passagem. Parei a menos de um metro dele, olhando-o de cima a baixo com um desprezo palpável.
— Alinhamento de docas se faz por memorando interno ou em reuniões de comitê, Weber. Não enfiado na mesa da secretária executiva depois que o andar inteiro já foi embora.
— Henry! — Sara repreendeu em tom baixo, o rosto queimando em um misto de espanto e constrangimento. Ela deu a volta na mesa rapidamente, parando entre nós dois e colocando a mão no meu peito. O toque dela era firme, quase uma barreira de contenção. — Nós só estávamos conferindo uma rubrica. Já terminamos.
Não desviei os olhos do alemão nem por uma fração de segundo.
— É mesmo? Porque da porta de entrada parecia uma aula particular de intimidade.
Luka fechou a pasta de couro preta com um clique seco, sustentando o meu olhar com uma audácia que me fez cerrar os punhos dentro dos bolsos.
— Peço desculpas se a minha proximidade física gerou alguma interpretação equivocada, senhor Reeves. Tenho o mais profundo respeito pela senhorita Olsen e pela excelência do trabalho dela. Como disse, era apenas uma dúvida operacional.
— Guarda o seu respeito e as suas dúvidas para o horário das nove às seis, Weber — rosnei com a voz rouca, baixa e ameaçadora. — E trata de manter a distância regulamentar de quem trabalha sob as regras da Holding Foley. Ficou bem claro para você ou quer que eu desenhe em alemão?
— Henry, chega! — Sara elevou a voz, puxando a alça da bolsa no ombro e me empurrando de leve pelo peito para que eu recuasse. — Já chega! Boa noite, senhor Weber. Até amanhã.

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