Capítulo 200 — O Retorno do Veneno
Lucas Avery
A calmaria em São Francisco sempre vinha acompanhada de uma rotina implacável.
Só que no meio dessa rotina me faltava uma coisa primordial, e ela tinha nome e sobrenome: Natalie Weston.
A sensação que eu tinha ultimamente era de que Natalie e eu estávamos correndo em pistas paralelas sem conseguir nos cruzar. Entre as reuniões intermináveis nas empresas, os alinhamentos operacionais e as correrias para acudir os amigos, sobravam apenas mensagens rápidas de texto e beijos apressados na despedida.
A gravidez da Sara, as crises possessivas do Henry e, por último, o drama do William com a chegada da Karen haviam monopolizado as últimas vinte e quatro horas do nosso círculo. A Nat passou metade da noite acordada com as meninas prestando apoio moral e, pela manhã, cancelou o nosso café para ir direto à filial da Foley dar suporte ao Will.
Eu não reclamava. Amava a lealdade da minha namorada e o coração imenso que ela tinha para os nossos. Mas a saudade apertava. Por isso, a mensagem que ela me mandou perto do meio-dia foi o ponto alto do meu dia:
“Amor, o socorro ao Will foi um sucesso. O almoço hoje é nosso, prometo compensar o café. Me espera às treze e quinze.”
Cheguei dez minutos adiantado ao restaurante no Financial District. Era um bistrô sofisticado, reservado, com divisórias de madeira escura e luz suave, perfeito para conversarmos em paz depois de dias tão agitados.
O garçom me acomodou em uma mesa de canto próxima ao jardim interno e serviu uma taça de água. Me sentei, conferindo o relógio no pulso e respirando fundo, aproveitando o silêncio enquanto esperava a Natalie chegar.
— Lucas? Que coincidência fascinante encontrar você por aqui.
A voz feminina, aveludada, cadenciada e carregada de uma falsa doçura, soou ao meu lado como o sibilo de uma víbora rastejando no mármore.
Um arrepio gelado subiu pela minha espinha. Ergui os olhos no mesmo segundo.
Parada ao lado da minha mesa estava Diana.
Ela usava um vestido claro impecável, os cabelos castanhos presos em um coque alinhado e segurava uma pasta fina de couro sob o braço. O sorriso nos lábios perfeitamente desenhados parecia espontâneo à primeira vista, mas os olhos traziam aquele brilho frio, manipulador e perverso que eu conhecia desde os tempos de faculdade.
Depois de anos, a mulher responsável pelo pior pesadelo do meu passado estava bem na minha frente. Travei a mandíbula na hora. Não me levantei. Não esbocei a menor cordialidade.
— Diana — pronunciei o nome como quem cospe um veneno amargo. — O que você está fazendo aqui?
— Não precisa me olhar com essa fúria toda, Lucas — ela deu meio passo para a frente, apoiando a mão espalmada sobre a borda da minha mesa com uma ousadia descarada. — Eu estava almoçando com alguns consultores na sala privativa dos fundos e vi você de costas. Não pude deixar de me aproximar para dar um olá civilizado.
— Eu não tenho nada de civilizado para falar com você. Muito menos aqui — cortei em voz baixa e cortante, sem desviar o olhar do dela. — Eu já deixei isso muito claro no telefone quando você teve a audácia de me ligar. E se você acha que tentar encurralar o Adrian em restaurante ou me cercar em mesas alheias vai surtir algum efeito, você perdeu o juízo de vez.
Diana soltou uma risadinha baixa, um som melodioso que parecia ensaiado na frente do espelho. Ela não se intimidou nem por um milímetro. Pelo contrário: puxou a cadeira à minha frente com a maior naturalidade do mundo e se sentou, cruzando as pernas e apoiando os antebraços sobre a toalha de linho, diminuindo a distância entre nós.
— Você continua o mesmo homem reativo de sempre, Lucas... tão previsível. — Ela inclinou a cabeça para o lado, me fitando com uma audácia que me embrulhava o estômago. — O Adrian também reagiu com aquela pompa toda de imperador ferido. Vocês dois adoram carregar mágoas de anos atrás como se fossem troféus de guerra. Mas os anos passam, querido. As pessoas amadurecem. O mercado muda.
— O tempo passa, Diana, mas o caráter podre de certas pessoas não muda nunca — rebati, a voz endurecendo a cada palavra. — Você manipulou uma traição nojenta na faculdade, trocou projetos acadêmicos para jogar o homem que eu considerava um irmão contra mim e destruiu a nossa convivência por anos com mentiras calculadas. Você quase arruinou as nossas vidas inteiras para alimentar o seu próprio ego doentio.

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