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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 1

~ ZOEY ~

— Acho que o Christian está me traindo.

A frase saiu antes de eu decidir que ela podia existir.

Ela caiu na sala de estar da Anne como uma colher de metal dentro de um copo de vidro: barulho demais para um ambiente que, até três segundos atrás, era só conforto. Estávamos largadas no sofá dela em Londres, no meio da tarde, com a televisão ligada em alguma coisa boba — um programa tão leve que parecia existir apenas para não exigir neurônios — e dois potes de sorvete abertos na mesa de centro como se fosse uma estratégia de sobrevivência. Do lado de fora, o céu londrino fazia o que sempre faz: prometia chuva sem se comprometer.

Anne virou o rosto devagar, me encarou por meio segundo e então soltou uma gargalhada na minha cara.

Não foi uma risadinha educada. Foi uma gargalhada de verdade, dessas que começam no peito e acabam te fazendo puxar ar como se você tivesse corrido. Ela quase derrubou a colher.

— Zoey — ela disse, ainda rindo — isso é ridículo.

Eu apertei a boca, sentindo o rosto esquentar. Eu tinha vindo até ali para falar com a minha irmã justamente porque eu sabia que, no minuto em que eu dissesse isso em voz alta, metade do meu cérebro ia querer me prender num quarto e me deixar refletindo sobre vergonha.

— Você não pode rir — eu reclamei.

— Eu posso e eu vou — ela respondeu, secando uma lágrima de riso no canto do olho. — Porque o Christian é doido por você.

— Ele anda estranho.

Anne ajeitou o corpo no sofá, como se eu tivesse apertado um botão secreto de “modo irmã conselheira”. A mão dela pegou o controle remoto e baixou o volume da TV sem nem olhar, como se ela estivesse acostumada a silenciar ruídos para ouvir os meus.

— Explica “estranho” — ela pediu.

Eu empurrei o pote de sorvete com o dorso da mão, de leve, como se aquilo pudesse organizar meus pensamentos.

— Ele está… escondendo coisas de mim.

Anne ergueu uma sobrancelha.

— Você é dramática.

— Não é isso. — Eu respirei fundo, tentando não me perder na minha própria ansiedade. — Antes, ele atendia qualquer ligação, a qualquer hora, na minha frente. Agora ele… ele esconde o celular. Ele vira a tela para baixo. Ele fecha o notebook quando eu entro. Ele diz que vai trabalhar, mas eu sei que ele não está no escritório.

Eu disse tudo de uma vez, como se a velocidade fosse me salvar do ridículo.

Anne ficou me olhando em silêncio por tempo suficiente para eu ouvir o zumbido baixo da geladeira da cozinha. Eu odiei o silêncio porque ele parecia confirmar que eu tinha falado algo grave.

Então ela soltou um suspiro e esticou o braço para pegar o próprio sorvete.

— Tá — ela disse. — Isso é… no mínimo, suspeito.

Eu abri a boca.

— Mas — Anne levantou o dedo antes que eu comemorasse — suspeito não é a mesma coisa que traição.

Eu desabei no sofá como se eu tivesse sido sustentada por um fio invisível e alguém tivesse cortado.

— Se isso não é traição… o que é? — eu perguntei, e a minha voz saiu menor do que eu queria.

Anne me encarou com uma firmeza que só existe em irmã.

— Pode ser cem coisas. Pode ser trabalho. Pode ser estresse. Pode ser uma surpresa. Pode ser… — ela fez uma careta, como se fosse obrigada a considerar a hipótese mais chata do mundo — terapia.

Eu ri sem humor.

— Christian fazendo terapia é mais improvável do que eu ficar tranquila.

— Você acabou de provar o meu ponto — ela disse, seca. — Você também precisa de terapia.

Eu passei a língua nos dentes e tentei não ficar defensiva. O problema de desabafar com a Anne é que ela nunca compra a minha versão com desconto. Ela exige o preço cheio: fatos, contexto, honestidade.

Anne deixou o pote de sorvete na mesa e se virou mais para mim.

— Maninha — ela disse, e o apelido veio com aquele cuidado que sempre me desmontava — eu sei que você tem traumas do passado. E eu sei que quando o seu corpo decide ter medo, ele vira um comitê inteiro tentando encontrar provas. Só que… você e Christian são simplesmente o casal perfeito.

Eu fiz uma careta, porque “casal perfeito” era um tipo de frase que eu detestava ouvir. Parecia propaganda. Parecia mentira bonita.

— Não existe casal perfeito — eu murmurei.

Extra - Capítulo 1 1

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