~ NICO ~
Eu já tinha passado a vida inteira treinando para manter o controle — na terra, na adega, nas contas, nas tragédias. Mas nada, absolutamente nada, te prepara para a sensação de que o mundo inteiro virou uma seta apontando para um único lugar: hospital. Agora.
Eu não lembro de descer do palco. Eu lembro de mãos se afastando, de alguém abrindo espaço, de Christian dizendo alguma coisa que não entrou, de Zoey já no telefone com uma eficiência assustadora. Lembro do rosto da Martina, pálido de susto e firme de comando, puxando a Bella para perto do corpo.
— Eu fico com ela — Martina disse. — Vai.
Bella agarrou o vestido da avó com as duas mãos, os olhos enormes, mas não chorou. Só olhou para mim e para a Bianca com aquela coragem quieta de criança.
— Vai com a mamãe — ela falou.
Eu quis responder, beijar a testa dela, dizer que tudo ia ficar bem. Mas o “bem” estava no banco do carro, no cinto de segurança apertado na Bianca, no caminho mais rápido possível sem transformar a cidade em risco.
A cidade virou borrão.
Não porque eu estivesse correndo como um louco, mas porque eu estava dirigindo com o tipo de foco que deixa tudo fora da estrada parecer cenário.
— Tá doendo? — eu perguntei, sem tirar os olhos.
— Tá apertando — ela respondeu. — Vai e volta.
— Contração.
Eu disse a palavra como se ela fosse um diagnóstico e uma oração ao mesmo tempo.
Bianca soltou um som curto, irritado.
— Não narra, Nico.
Eu quase ri.
— Eu não tô narrando. Eu tô… — eu parei, porque não tinha palavra bonita que servisse. — Eu tô aqui.
Ela apertou a minha mão, e eu senti o calor dela atravessar a minha pele.
Eu parei na entrada de emergência do hospital, saí do carro antes mesmo de desligar completamente, contornei para abrir a porta da Bianca e a ajudei a descer. Ela se apoiou em mim, e por um segundo eu senti o peso do corpo dela — não o peso da barriga, o peso do mundo inteiro depositado na minha responsabilidade.
— Boa noite, eu preciso de obstetrícia — eu disse para a primeira pessoa de uniforme que eu vi. Minha voz saiu firme. Eu me agarrei a isso.
Uma enfermeira apareceu rápido demais para ser acaso.
— Nome?
— Bianca Bellucci Montesi.
Ela olhou a barriga da Bianca, olhou o rosto dela.
— A bolsa rompeu?
Bianca assentiu.
— Estou com contrações.
— Cadeira de rodas.
A cadeira veio. Bianca se sentou com dificuldade, respirando curto, e eu empurrei como se aquela fosse a coisa mais importante do mundo. E era.
Eu ouvi perguntas, respostas, números, datas. Eu ouvi a Bianca dizendo “sim” e “não” com a voz controlada, como se até ali ela estivesse em reunião.
— Dilatação? — uma médica perguntou.
— Ainda não sei — Bianca respondeu, e os dedos dela apertaram o apoio da cadeira.
— A gente vai avaliar.
Entramos numa sala, luz branca, equipamento. A médica falou rápido, a enfermeira mais rápida ainda. Bianca respirava, eu respirava com ela, tentando sincronizar como se isso tivesse algum poder.
— Você vai ficar bem — eu falei, baixo.
Bianca me olhou com um tipo de raiva afetiva.
— Eu sei — ela disse, e foi quase um desafio. — Mas eu posso reclamar mesmo assim.
Eu encostei a testa na dela por meio segundo.
— Reclama.
A avaliação veio em pedaços.
— Você tá em trabalho de parto — a médica confirmou, como se isso fosse novidade para a mulher que tinha acabado de molhar o chão de um evento inteiro.
Bianca soltou um ar, uma mistura de “ótimo” e “que merda!”.
— Vamos preparar — a médica continuou. — Você tem acompanhante?
Eu levantei a mão como se eu precisasse provar que existia.
— Sou eu.
— Então você vai se trocar e colocar a roupa adequada. Agora.
Eu segui uma enfermeira por um corredor lateral e entrei numa sala pequena. Ela me entregou um kit, orientou com a mesma objetividade com que alguém manda você assinar um documento.
— Tira tudo, coloca isso, prende o cabelo, lava as mãos. Sem relógio. Sem acessórios. Pode levar o celular, mas ele fica no bolso. Se for usar, sem flash e sem atrapalhar a equipe.
Eu olhei para as minhas mãos.
Eu estava suando.
Tirei o relógio como se ele fosse inútil de repente. Porque tempo ali não era número. Era contração.
— Agora — a médica disse. — Bianca, quando vier a contração, você empurra. Eu vou contar.
Eu encostei a minha testa na dela.
— Eu tô aqui — eu repeti, porque era a única coisa que fazia sentido.
Veio.
Bianca empurrou.
Ela gemeu, depois gritou, e eu senti meu estômago virar e meu coração ficar no lugar errado. Eu quis arrancar a dor dela com as mãos. Eu quis trocar. Eu quis qualquer coisa.
Mas tudo que eu podia fazer era ficar.
E eu fiquei.
Outra contração.
Outra contagem.
O tempo deixou de existir como antes. Eu só existia entre a respiração dela e a minha.
— Tá indo bem — alguém disse.
— Mais uma — a médica orientou.
Bianca abriu os olhos e, por um segundo, eu vi pânico.
Eu segurei o rosto dela com cuidado.
— Eu tô aqui — eu disse pela terceira vez, como se a repetição criasse parede.
Ela puxou ar, prendeu, empurrou.
O quarto inteiro pareceu prender o ar junto.
Houve um silêncio breve.
Um segundo suspenso.
E então veio o choro.
Um som inteiro.
Um som que dizia vida.
Um som que dizia família.
Um som que dizia: tá tudo bem agora.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Hoje 04/04, até agora não foram desbloqueados os restantes dos capítulos. Último capitulo liberado 729.... Sem nenhuma explicação. Falta de respeito com os leitores... affff...
Estou achando a história da Anne muito chata. Até agora só enrolação. Aff......
Amei esse livro!! que venham os proximos, com certeza lerei......
O último capítulo desbloqueado foi o 729...isso a quase 15 dias... Qdo a autora irá desbloquear o restante dos capítulos?...
Amei todo o livro Mas infelizmente ficou sem alguns capítulos E agora não liberam o final Muito triste 😞...
Quando vai liberar os extras?...
Um salto de 20 capítulos???? E ainda por cima depois de "obrigarem" os leitores a gastarem dinheiro, pois não disponibilizaram os 2 últimos capítulos da história para depois saltar a história e terminar desta maneira, não achei correto 🤬...
Então dá entrada do Kristian passa para a avó Martina e para a Bella, não entendi......
Poxa autora, é interessante a gente disponibilizar os capítulos gratuitos mesmo já tendo acabado de postar a história... Não dá pra toda hora ficar comprando moedas pra ler....
Boa noite... Desde 6f que não liberam os capítulos... já está ficando cansativo.... affff...