~ MAREU ~
— Liv? — eu falei, e a minha voz saiu mais alta do que deveria. — Ai, meu Deus… Liv?
— Por que meu pai não pode te ligar? — Olívia perguntou do outro lado, com a calma perigosa de quem vai te desmontar em dois segundos.
Eu fechei os olhos, tentando reorganizar a minha alma, que tinha acabado de sair do corpo e voltar correndo.
— Porque… — eu improvisei, olhando ao redor como se Clara pudesse me soprar uma desculpa decente. — Porque eu tô no meio de um dorama.
Clara levantou a sobrancelha e fez um gesto de “muito convincente” com sarcasmo.
— E você sabe como eu odeio ser interrompida no meio do episódio — eu continuei, ganhando confiança na mentira, como sempre. — E seu pai tem esse dom, né? Ele aparece bem na hora que a protagonista vai confessar um segredo e pá, liga.
Do outro lado, houve um silêncio curto. Eu imaginei a Olívia calculando a probabilidade estatística da minha desculpa ser verdade.
— Você tá vendo dorama sem mim? — ela perguntou, e agora o tom era pior. Era acusação de traição.
— Ah… — eu fiz, tentando achar uma saída. — Eu… eu tô fazendo pesquisa de campo.
— Pesquisa? — Olívia repetiu, desconfiada.
— Sim — eu disse, rápida. — Eu tô verificando se o dorama continua digno do seu intelecto.
Olívia soltou um som que parecia um “hum” cético.
— E, na verdade, é um episódio chato — tentei novamente.
— Mas os chatos são os melhores — ela reclamou. — Você tem que esperar por mim.
Meu peito apertou de um jeito idiota.
— Tá bom… — eu respondi, tentando não me desmontar. — Mas você não me ligou pra falar de doramas ou do seu pai. O que foi?
— Não… — Olívia disse, e eu ouvi o som de movimento, como se ela estivesse andando pelo quarto. — Papai tá no banho e eu peguei o celular dele… emprestado.
Ela falou “emprestado” do jeito que uma pessoa fala “roubei, mas com ética”.
E, pelo jeito casual, meu cérebro montou a cena inteira: Logan no banho, achando que o mundo estava sob controle, enquanto a filha hackeava a vida dele com uma tranquilidade assustadora.
Eu levei a mão à testa.
— Liv… — eu comecei.
— A senha dele é tão ridícula — ela disse, sem o menor remorso — que eu não sei como ainda não limparam todas as contas dele.
Eu soltei uma risada antes de conseguir me segurar.
— Talvez você que seja muito esperta — eu provoquei.
— Isso eu sou mesmo — ela concordou, sem hesitar. Olívia nunca hesita em reconhecer a própria excelência. E eu, sinceramente, respeitava isso. — E por falar nisso…
Eu me ajeitei no sofá, instintivamente. Esse “por falar nisso” era sempre o começo de um contrato novo. Um adendo. Uma cláusula.
— Você vai na minha feira de ciências segunda-feira?
Eu congelei.
— Segunda? — eu repeti, estúpida. — Essa segunda?
Meu cérebro fez uma linha reta entre “segunda” e “entrevista no escritório do Rômulo”.
Talvez fosse um sinal pra eu não insistir nesse emprego com o Rômulo.
Talvez fosse um sinal pra eu não ir na feira.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...