~ MAREU ~
— Poooorrrrr favooooorrrr!
Eu falei isso esticando as sílabas como uma criança de três anos tentando convencer a mãe a comprar chocolate no caixa do supermercado. A diferença é que eu não queria chocolate. Eu queria apoio emocional em formato de uma pessoa chamada Clara Ribeiro.
Era segunda-feira de manhã e a gente estava no quarto dela se arrumando, cada uma no seu lado do espelho, com aquela luz cruel de dia útil mostrando que eu não tinha dormido direito nem por decreto presidencial.
Clara passou rímel com a mão firme de quem ainda tinha um emprego e um cérebro funcional.
— Por favor vai comigo na entrevista ou por favor vai comigo na feira de ciências? — ela perguntou, sem olhar pra mim, porque Clara faz perguntas sem precisar ver a tragédia nos olhos de ninguém.
— Por favor duplo — eu respondi, imediata. — Vai comigo nos dois.
Clara riu. Um riso curto, daquele que vem com “você é impossível” embutido.
— Mareu… eu preciso trabalhar.
— Diz que tá doente — eu sugeri, com a seriedade de quem estava propondo um plano de fuga internacional.
Clara virou o rosto pra mim, a sobrancelha levantada.
— E depois apareço em um antro de Novak? — ela disse. — Não, obrigada.
— Não é um antro. É uma… escola — eu tentei, fraca, já sabendo que era inútil.
Clara voltou para o espelho, passou o gloss e pegou a bolsa.
— Mas boa sorte — ela disse.
Eu fiquei parada no meio do quarto, com a escova de cabelo na mão, tentando entender se aquilo era apoio ou ironia.
— Na entrevista ou na feira? — eu perguntei.
Clara deu aquele sorriso que é quase afeto, mas com uma lâmina escondida.
— Boa sorte dupla. Você vai precisar.
E saiu.
A porta fechou e, por um segundo, eu fiquei olhando pro quarto como se ele fosse me dar uma solução. Nada. Só um silêncio de apartamento. Um silêncio que fazia minha situação ficar ainda mais alta.
Eu respirei fundo e me obriguei a pensar como uma adulta.
Eu tinha me dado conta de que podia fazer as duas coisas hoje.
Era simples. Eu ia cedo ao escritório do Rômulo, fazia a entrevista, saía de lá e corria para a feira de ciências da Olívia. Eu tinha dito que estaria lá. Eu não ia falhar com ela.
E, se desse tempo, eu ainda podia passar num café no caminho e fingir que eu não era uma pessoa com a vida derretendo pela terceira vez em um mês.
Eu terminei de me arrumar com uma determinação que parecia falsa, mas era o que eu tinha.
Roupa neutra, cabelo decente, maquiagem leve o suficiente para parecer “profissional” e pesada o suficiente para esconder a falta de sono. Eu não queria parecer uma ex-babá sem rumo. Eu queria parecer… uma candidata.
O escritório do Rômulo era grande.
Não tão grande quanto a Novak, mas ainda impressionante. Um prédio com vidro demais e gente apressada demais, daquele tipo que te dá vontade de andar mais rápido só pra não parecer turista.
Eu ajeitei a bolsa no ombro, endireitei a postura e fui até a recepção com o sorriso mais convincente que eu consegui fabricar.
— Bom dia. Meu nome é Mareu… Maria Eugênia — eu corrigi, porque eu ainda não sabia qual versão de mim era a mais apropriada em ambiente corporativo. — Eu tenho uma entrevista.
A recepcionista consultou a tela, digitou meu nome com a calma de quem lida com isso todo dia.
— Ah, sim. Você está sendo esperada — ela disse, simpática, profissional. — Oitavo andar, sala 801. Pode subir.
— Obrigada.
Eu fui até os elevadores, apertei o botão, entrei e encarei meu reflexo na porta de metal.
O elevador subiu rápido. Oitavo andar. As portas se abriram para a recepção do andar.
Só que… não tinha ninguém.
Uma bancada linda, polida, computador desligado, cadeiras perfeitamente alinhadas e nenhum ser humano. Nem um copo d’água esquecido. Nem um “bom dia”.
Eu parei um segundo.
Talvez fosse cedo. Talvez a secretária do andar ainda não tivesse chegado.
Então eu fui até a porta da sala 801 e bati levemente.
— Entra — uma voz masculina disse lá de dentro.
A voz do Rômulo.
Eu abri a porta devagar.
Rômulo estava de pé, atrás de uma mesa impecável, camisa alinhada, expressão casual. Ele sorriu quando me viu, e o sorriso dele tinha aquela coisa perigosa. Um homem acostumado a conseguir o que quer.
— Oi — eu disse, entrando com cuidado.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...