~ LOGAN ~
Eu subi para olhar a Olívia.
A porta do quarto estava encostada. Abri devagar, sem acender luz, e vi o corpo pequeno encolhido sob o edredom. Olhos fechados. Respiração… regular.
Dormindo. Ou fingindo que estava dormindo para não precisar conversar.
Eu fiquei um minuto parado, observando. A cabeça dela ainda tinha aquele jeito contido de criança que não se permite ser criança. A festa de ciências, o almoço, a explosão no clube… tudo tinha sido grande demais. Principalmente para alguém que, por padrão, já carregava muita coisa.
Eu pensei em me sentar na beira da cama. Em tocar o cabelo dela e dizer alguma coisa certa.
Mas eu não tinha nada certo em mim naquela momento.
E eu sabia que, se eu conseguisse resolver a situação com a Mareu… talvez eu conseguisse resolver a situação com a Olívia também. No fim das contas, tudo em mim e nela estava amarrado na mesma corda: confiança.
Eu fechei a porta do quarto com cuidado e desci.
Mareu estava na sala da penthouse como se aquele lugar não existisse. Encostada no sofá, joelhos dobrados, um jogo no celular rodando com efeitos sonoros baixos e uma barra de chocolate sendo devorada com a concentração de alguém que estava usando açúcar como ferramenta de sobrevivência.
Ela levantou o olhar quando eu passei.
— Ela dormiu?
— Dormiu — eu respondi.
Mareu assentiu, e voltou para o celular. Como se falar sobre sentimentos fosse uma reunião que ela ainda não tinha aceitado na agenda.
E eu fiz o que sempre fazia quando precisava de soluções precisas e rápidas.
Pedi ajuda ao Henrique.
Ele apareceu cerca de duas horas depois, como se estivesse chegando para um happy hour e não para um incêndio. Terno impecável, pasta na mão, sorriso no rosto. Um sorriso quase criminoso naquela situação.
— Tudo resolvido — Henrique anunciou assim que entrou.
Eu encarei.
— Tudo resolvido?
— Bom… — ele corrigiu, com uma calma indecente. — Pelo menos o que coube a mim resolver.
Ele se sentou e abriu a pasta com um estalar de papel que, em qualquer outro dia, teria me dado paz. Papel era previsível. Papel era controlável.
Ele colocou alguns documentos sobre a mesa de centro.
— Consegui as gravações do dia em que a Paula foi até o apartamento da Clara com as malas da Mareu. Também consegui o depoimento do porteiro. E, se você pressionar a Helen… eu aposto que ela abre a boca. Tudo organizado para a Mareu abrir um boletim de ocorrência.
Mareu, que estava no meio de um nível qualquer do jogo e de uma mordida dramática no chocolate, levantou o rosto devagar, como quem ouviu o próprio nome numa audiência.
— O quê? Eu?
Henrique deu um sorriso para ela.
— Você mesma, “eu”.
Eu vi a Mareu piscar duas vezes, com aquele olhar confuso.
Eu respirei fundo.
— Paula e Antônio estão te ameaçando — eu disse, sem rodeio. — Pela briga que vocês tiveram. Ela abriu um boletim de ocorrência… de lesão corporal.
A barra de chocolate parou no ar.
— Ela o quê? — Mareu perguntou, num volume que fez o teto parecer mais baixo.
— E eles estavam usando isso pra… me pressionar — eu continuei, e eu odiei ter que dizer essa parte na frente dela. — Só que agora a gente tem um contra-ataque.
Henrique inclinou a pasta como se estivesse apresentando uma proposta de investimento.
— Você abre um boletim de ocorrência contra ela por apropriação indébita. Com as imagens, depoimento e, se a Helen falar, melhor ainda. Aí temos um caminho: eu consigo negociar.
Mareu franziu a testa.
— Negociar o quê?
— Paula faz uma declaração de desinteresse no caso dela — eu expliquei — e você faz o mesmo no seu. Isso tende a esfriar tudo e… facilita para arquivarem.
Eu não olhei para ela. Eu não queria que ela visse a parte de mim que estava fragilizada.
— Eles vão sempre insistir que eu me case com alguém — eu disse. — Independente se for a Paula ou não. E eu… eu não consigo fazer isso agora.
Henrique se levantou um pouco do sofá, como se fosse me sacudir com as duas mãos.
— Logan, isso é loucura!
Eu respirei devagar. Porque, se eu fosse honesto, eu já tinha flertado com essa ideia antes.
Naquela fase em que eu ainda acordava com a casa grande demais e o silêncio agressivo demais. Quando o luto era recente o suficiente para eu não me reconhecer no espelho, quando eu tinha dois filhos nos braços e a sensação constante de que eu estava falhando com os dois. Quando “vida” era uma palavra distante, e eu deixava o conselho decidir por mim porque eu não tinha energia para decidir coisa nenhuma.
Naquela época, abrir mão teria sido desistência. Teria sido… apagar. Sumir.
Mas agora…
Agora eu olhei para a Mareu, e o “agora” ganhou peso.
— Não é loucura.
Eu olhei para a escada. Para o andar onde minha filha estava.
— Além do mais… Olívia jamais permitiria que eu me casasse e...
— Permitiria sim.
A voz veio de cima, limpa, firme, sem nenhum constrangimento de estar ouvindo uma conversa que eu claramente não queria que ela ouvisse.
Eu congelei.
Henrique congelou.
Mareu congelou com o chocolate a meio caminho da boca.
Olívia desceu dois degraus e parou ali, olhando para nós três como se estivesse prestes a anunciar o resultado de uma votação.
— E é só fazer a coisa certa. Se casar com a Mareu.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...