~ MAREU ~
Quando eu cheguei na casa da Clara, já era fim de tarde daquele jeito que parece que o dia inteiro aconteceu em modo turbo e, de repente, o céu decide ficar dourado só pra te irritar.
O cheiro de comida vindo da cozinha me atingiu em cheio. Não era nada chique. Era “comida de gente normal”, e eu ainda estava com a sensação de que eu tinha passado as últimas horas dentro de um roteiro que alguém escreveu depois de misturar café com caos.
Clara estava de costas no fogão, mexendo alguma coisa numa panela com a autoridade de quem sempre sabe o que fazer com a cebola e com a vida.
— E aí? — ela perguntou, sem virar. — Conseguiu o emprego?
Eu larguei minha bolsa no aparador como se ela pesasse uma tonelada e encostei no batente da cozinha.
— Consegui dois, na verdade.
Ela virou o corpo inteiro, a colher de pau na mão, e os olhos arregalaram.
— Dois?
— Sim — eu disse, com a calma falsa de alguém que está a dois segundos de surtar. — Um de secretária do Rômulo e outro de esposa do Logan Novak.
Clara deu um pulo tão dramático que a panela estalou. Ela xingou baixinho, largou a colher, sacudiu a mão e fez uma careta.
— Ai! — ela reclamou. — Você acabou de me queimar com uma frase.
Eu fiquei parada ali, meio culpada, meio satisfeita com o efeito.
— Desculpa.
— Desculpa nada. — Clara desligou o fogo com agressividade e apontou pra sala como se eu fosse um cachorro que precisava obedecer. — Vem. Agora. Senta.
Eu obedeci, porque Clara Ribeiro, quando assume o comando, vira um furacão.
Sentou ao meu lado, pernas cruzadas, rosto sério.
— Detalhes.
— Bom… depois que você saiu eu fiquei pensando se eu devia usar aquela calça jeans que eu estava ou se eu devia pegar sua saia lápis preta empresta, porque eu queria parecer mais profissional e...
— MAREU. — Clara levantou a mão como se eu fosse um carro vindo na contramão. — Menos detalhes. Fala sobre os empregos.
Eu fechei a boca e recomecei, mais rápido.
— Tá. O Rômulo fez uma entrevista ridícula. Eu beijei ele no meio.
Clara piscou.
— Você…
— Sim. — Eu ergui um dedo, defensiva. — Porque eu achei que eu tinha entrado na sala errada e meu cérebro decidiu que a solução era… romance. Não me julga.
Clara soltou um riso curto, indignado.
— Eu vou julgar sim, mas depois.
— E aí ele disse que o emprego era meu se eu quisesse. Que cobria o valor que eu ganhava como babá.
Clara inclinou a cabeça.
— Tá… e o Logan?
Eu senti meu estômago apertar só de ouvir o nome.
— O Logan vai dispensar a Paula.
— Finalmente o cara tomou uma atitude — Clara comemorou.
— Ele tava… me defendendo — eu completei, e eu odiei o jeito como isso soou. Como se eu ainda estivesse precisando dele pra alguma coisa.
Clara ficou séria na hora.
— Do quê?
— Ela abriu um boletim contra mim. Lesão corporal.
Clara abriu a boca, chocada.
— Por causa da briga no corredor?
Eu fiz que sim com a cabeça, lembrando das unhas, do cabelo, do sapato e do ridículo todo.
— E hoje isso virou moeda de troca — eu disse. — Antônio estava usando pra pressionar o Logan. Só que… o Henrique conseguiu filmagens do dia que a Paula foi no meu prédio com minhas malas. E o porteiro deu depoimento. Agora eu também abri um boletim contra ela por apropriação indébita. Por causa dos sapatos. Logan tinha o comprovante de compra.
Clara ficou encarando meu rosto como se eu fosse um documentário.
— Tá. — Ela respirou fundo, processando. — Então o plano é…
— As duas arquivarem tudo. Ela faz declaração de desinteresse lá, eu faço aqui. E pronto. Uma trégua.
Clara assentiu devagar.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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