~ MAREU ~
Eu cheguei ao Louvre com uma determinação que eu só costumava ter em duas situações: quando alguém me dizia que eu não podia fazer alguma coisa e quando eu estava fingindo que minha vida não tinha virado um reality show corporativo.
E, como bônus, eu ainda estava com óculos escuros porque a ressaca tinha decidido que a luz de Paris era um ataque pessoal.
— Você parece uma celebridade fugindo de paparazzi — Logan comentou, empurrando o carrinho do Liam com aquela eficiência irritante de homem que nasceu pronto.
— Eu sou uma celebridade fugindo de consequências — eu respondi.
Ele soltou um som baixo que era quase riso.
Olívia caminhava na nossa frente com a energia de uma criança de seis anos e meio que se achava adulta. Ela olhava para tudo como se estivesse fazendo um mapa do terreno.
Quando chegamos à área das pirâmides, eu parei no meio do caminho e puxei o celular.
— Ok. Momento turista.
Logan me olhou como se eu tivesse acabado de propor uma greve geral.
— Mareu…
— Não. — Eu levantei um dedo. — Hoje eu vou ser turista de verdade. Eu mereço. Eu quase derreti ontem.
Olívia já tinha entendido o perigo.
— Eu não vou passar vergonha — ela avisou, antes mesmo de eu abrir a boca.
— Não é vergonha — eu disse, puxando-a para a posição certa. — É ser turista. Agora finge que tá segurando a ponta da pirâmide.
Olívia cruzou os braços.
— Eu não vou fazer isso.
— Vai, sim.
— Não vou.
— Vai.
Ela me encarou com aquela cara de mini executiva em reunião de orçamento.
— Isso é humilhante.
— Isso é icônico — eu corrigi. — E eu vou colocar numa moldura.
Logan, ao meu lado, soltou um suspiro de quem já sabia que tinha perdido.
— Pelo amor de Deus.
— Vai lá com ela e o Liam — eu ordenei, apontando para o lugar exato onde eu queria a cena.
— Mareu, isso é muito… — ele começou.
— Muito legal! — eu interrompi. — Vai. Todo mundo segurando a ponta da pirâmide.
Olívia olhou para o pai.
Logan olhou para a filha.
Foi um daqueles olhares silenciosos que dizem: a gente não vai vencer.
E, com uma resignação quase comovente, os dois fizeram a pose.
Olívia com a mão esticada, cara séria.
Logan atrás, segurando Liam com uma mão e esticando a outra para “segurar” a pirâmide com uma dignidade que não existia.
Eu tirei a foto.
E caí na gargalhada.
— Meu Deus — eu consegui dizer entre risos. — Eu vou usar isso contra vocês com toda certeza.
Olívia revirou os olhos.
— Chantagem infantil.
— E eficiente — eu respondi.
Logan aproximou-se, colocando Liam de volta no carrinho.
— Apaga.
— Nunca.
— Mareu.
— Nunca, Logan.
Ele desistiu com um suspiro e eu senti um prazer irracional em ter vencido uma batalha tão pequena.
Entramos.
E foi ali que eu percebi que a parte “turista” era a única realmente divertida.
Porque dentro do Louvre tudo virava outro tipo de solenidade.
Muita gente. Muito silêncio. Muito andar. Muita gente fingindo que entende arte enquanto tenta achar a Mona Lisa sem parecer desesperada.
Nós encontramos o guia que Heitor Novak tinha reservado.
Era um homem elegante demais. Terno claro, postura perfeita, sorriso educado, um inglês impecável e aquele tom de voz de professor universitário que faz você se sentir burra por respirar alto.
Olívia, obviamente, amou.
Ela foi na direção dele com um brilho nos olhos.
— Olá! — ela disse, em inglês perfeito, como se tivesse nascido em Londres e só estivesse de férias na infância. — Vamos começar pela coleção egípcia ou pelo Renascimento italiano?
Eu quase tropecei.
Logan me olhou de lado, como quem diz: eu te avisei que ela era perigosa.
O guia abriu um sorriso real.
— Boa pergunta.
E começou.
Começou com datas.
— Foi. Pelo menos disso meus pais não me privaram.
Ele riu, baixo.
— E o seu? — eu perguntei, curiosa demais para alguém que deveria estar prestando atenção na arte.
Logan respondeu sem hesitar.
— Colega de escola também. Atrás da arquibancada do campo de futebol.
Eu fiz uma cara de avaliação.
— Hum… sexy.
O guia nos olhou feio de novo.
Eu apontei para uma escultura próxima — um homem nu em mármore, musculatura perfeita, pose dramática — e repeti, um pouco mais alto:
— Sexy.
Logan não aguentou.
A risada dele escapou de um jeito curto e genuíno que fez o guia apertar os lábios como se quisesse nos expulsar do museu.
Olívia, felizmente, estava hipnotizada pela explicação detalhada que o guia começou a dar justamente sobre aquela escultura. Ela se aproximou, fazendo perguntas, anotando mentalmente, existindo como uma pequena ameaça ao sistema de ensino.
E foi nesse momento, em que o guia estava totalmente focado nela, que Logan se inclinou de leve na minha direção e murmurou, como se estivesse contando um segredo:
— Sabe o que foi bem sexy?
Eu engoli em seco.
— O quê?
Ele olhou para frente, como se estivesse prestando atenção na explicação, e disse no tom mais calmo do mundo:
— A mensagem que você me mandou ontem.
Meu rosto queimou na hora.
Não um calor bonito.
Um calor de pânico.
Eu senti o coração tropeçar.
E a única frase que o meu cérebro conseguiu formar foi uma muito específica:
Puta.
Que.
Pariu.
Eu não comprei uma blusa de cashmere.
Eu mandei uma mensagem pro Logan.
E não qualquer mensagem.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...