~ MAREU ~
De alguma forma, eu acordei no meu quarto.
O que, considerando a última imagem que eu lembrava com clareza — eu acariciando ao tapete da Penthouse — parecia um milagre logístico.
A cama estava macia embaixo do meu corpo, mas o meu corpo protestava contra qualquer movimento, como se cada osso tivesse decidido fazer greve coletiva.
Minha cabeça doía tanto que eu quis arrancá-la temporariamente e deixar em algum lugar seguro até a tarde.
Eu virei para o lado e encontrei um bilhete na mesa de cabeceira, junto com dois comprimidos e um copo de água.
“Acho que você vai precisar disso.”
Eu sorri, apesar da dor, reconhecendo a caligrafia perfeita do Logan. Aquelas letras certinhas tinham a mesma energia dele: controle, eficiência e um carinho que ele fingia que não existia.
Eu me sentei devagar, como se estivesse acordando um tigre dentro do meu crânio, e engoli os comprimidos com a água.
— Obrigada, doutor Novak — murmurei para o bilhete.
A água desceu fria e eu senti o estômago revirar. Não era fome. Era uma lembrança viva do bar, do tapete e da minha dignidade escorrendo pelo gargalo de uma garrafa.
Eu me arrastei até o banheiro tentando me tornar apresentável o suficiente para encarar o mundo.
Banho rápido.
Escovar os dentes.
Pentear o cabelo.
Passar um hidratante neutro para não acordar a dermatite de novo.
Enquanto eu fazia tudo isso no automático, uma sensação insistente começou a apertar no fundo da minha cabeça.
Eu tinha a impressão de que precisava lembrar de alguma coisa importante.
Uma coisa que tinha fugido.
Ou que eu tinha feito fugir.
Eu encarei meu reflexo no espelho, com o cabelo ainda úmido e os olhos um pouco menores do que deveriam.
— Eu acho que comprei alguma coisa online — murmurei, lenta.
Não seria a primeira vez.
Eu tinha esse hábito vergonhoso de deixar o carrinho pronto nas minhas lojas online preferidas. Era mais pela dopamina de comprar… ou fingir que ia comprar… do que pelo ato em si.
Porque eu não tinha dinheiro pra isso.
Então eu nunca comprava.
Exceto quando mexia no celular bêbada.
Em minha defesa, tinha acontecido só duas vezes. E eu tinha cancelado a compra depois, e ficado tudo bem.
Eu apoiei as mãos na pia e fechei os olhos.
— Se for aquela blusa de cashmere eu vou ficar — eu decidi, como se fosse um plano maduro e consciente. — Eu mereço um presente depois de tudo o que eu estou aguentando.
Foi quando ouvi alguém bater na porta do quarto — não uma batidinha educada, mas um soco sonoro acompanhado de um grito.
— MAREU!
Eu congelei.
A voz era da Olívia.
Por que ela estava gritando?
Aconteceu alguma coisa?
Eu saí do banheiro e abri a porta do quarto com a cara de quem esperava notícias de guerra.
Olívia estava no corredor, arrumada, cabelo preso, mochila pequena nas costas, energia de criança que dormiu oito horas e acordou com plano de dominar o mundo.
— PRONTA PRO LOUVRE?
Eu pisquei duas vezes.
— Por que você está gritando?
Olívia franziu a testa, ofendida.
— Eu não estou gritando.
Eu levei a mão ao ouvido como se fosse regular um volume imaginário.
— Ah, certo. Só preciso abaixar o volume.
Ela me analisou da cabeça aos pés com precisão.
— Você está de ressaca?
— Eu não estou de ressaca — eu respondi com a dignidade cambaleante de uma mulher que claramente estava de ressaca.
Olívia esperou.
Eu completei, tentando achar um termo que parecesse mais sofisticado:
— Eu estou… levemente… com a doença do dia seguinte de… bebida.
Olívia inclinou a cabeça.
— Chamam de ressaca.
— Eu chamo de mente blindada — eu retruquei.
Ela abriu um sorriso pequeno, satisfeita.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...