~ MAREU ~
Tudo bem.
Eu tinha dado uma resposta, não tinha?
E tinha sido uma resposta educada.
Eu comecei dizendo “obrigada” e terminei com “com gratidão”. Isso era educado.
O probleminha.
O único probleminha.
Era todo o resto.
Cath ria enquanto eu contava, com a satisfação de quem assiste a uma confusão na qual não está envolvida e ainda ganha pipoca para o espetáculo.
— “Cobra peçonhenta com a língua venosa”? — ela repetiu, com os olhos brilhando. — Mareu, isso é poesia.
Eu gemi de vergonha e escondi o rosto por trás do copo de chá.
— Isso nem faz sentido — eu resmunguei.
— “Ácido hialurônico no cérebro”? — Cath continuou, agora já tropeçando nas palavras de tanto rir.
Eu respirei fundo, tentando recuperar alguma dignidade.
— Bom… existem estudos que… provam que… o ácido hialurônico no cérebro…
Eu parei.
Fiquei em silêncio por meio segundo.
E desisti.
— Tá. Não existe porra de estudo nenhum.
Cath caiu na gargalhada como se eu tivesse contado a melhor piada do ano. Ela se dobrou um pouco para frente e, quando finalmente respirou, pegou o cantil da bolsa com a naturalidade de quem tira um batom.
— Eu vou emoldurar essa sua mensagem — ela anunciou.
— Você vai me matar — eu murmurei.
— Eu vou te salvar — ela corrigiu, inclinando o cantil e enchendo meu copo de chá com uma generosidade suspeita.
Eu arregalei os olhos.
— Cath, o que tem nisso afinal?
Ela fechou o cantil e deu de ombros.
— Uma misturinha à la Cath Novak.
— Eu quase não sobrevivi ao dia de ontem — eu lembrei, apontando para o meu crânio como prova. — Eu aprendi minha lição e vou ficar longe disso hoje.
Eu disse com firmeza.
E me recusei a beber.
Só que eu continuei segurando a xícara de chá, como se ela fosse um objeto neutro e não um possível coquetel de decisões ruins.
Cath me observou com um sorriso torto.
— Fala isso pra você mesma daqui a quinze minutos.
Eu abri a boca para retrucar.
Não deu tempo.
O ar do jardim mudou.
Eu não sei explicar direito como, mas mudou. Como se alguém tivesse abaixado a música e ajustado a luz para um interrogatório.
E, quando eu virei o rosto, lá estava ela.
Gabriella Novak.
Se aproximando.
Impecável.
Fria.
Como uma ameaça em forma de mulher.
Meu corpo respondeu antes da minha mente: um arrepio me atravessou, a mão ficou boba e a xícara balançou perigosa. Eu quase derramei o chá — e aquilo teria sido uma tragédia completa, porque eu definitivamente não precisava de perfume com cheiro de álcool pra completar o look “noiva descontrolada em evento corporativo”.
Cath notou e riu de canto.
— Lá vem.
Gabriella parou diante de nós com um sorriso que parecia educado, mas tinha a mesma temperatura de gelo.
— Catharina — ela disse, em português com aquele sotaque “enferrujado” que só aparecia quando era conveniente. — Henri está te procurando. Vá fazer companhia a ele.
Cath revirou os olhos.
— Claro — respondeu, a voz carregada de ironia. — Era tudo o que eu estava planejando para o restante do meu dia.
Ela me lançou um olhar rápido, como se dissesse “boa sorte”, e se levantou.
O mais absurdo não foi Cath ir.
Foi Cath ir sem discutir.
Sem questionar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...