~ MAREU ~
Eu não devia ter deixado a palavra “um ano” cair assim, no meio do convés, como se fosse só contabilidade.
Mas foi a Olívia quem disse.
E quando Olívia diz alguma coisa, ela diz como se estivesse apontando um fato científico. Sem dramatizar. Sem pedir licença para o impacto.
O copo de suco escorregando da mão do Logan foi rápido, pequeno, quase nada. Um respingo no convés. Um detalhe que, para qualquer pessoa, seria exatamente isso: um detalhe.
Para mim, foi o suficiente.
Eu vi o jeito como o ombro dele endureceu. Vi a mandíbula travar. Vi, sobretudo, o segundo de ausência no olhar, como se ele tivesse sido puxado para outro lugar sem querer.
Eu pensei em perguntar para ele se estava bem.
Mas seria idiota.
Claramente ele não estava.
Então eu fiz a única coisa que eu sabia fazer quando uma casa inteira parecia prestes a desabar: eu procurei a criança.
Eu me inclinei um pouco na direção da Olívia, mantendo a voz baixa, como se o mar pudesse ouvir.
— E… você está bem com isso?
Olívia me olhou como se eu tivesse feito uma pergunta mal formulada.
— Com o aniversário de um ano do meu irmão? — ela respondeu, e a ironia veio fina, quase elegante. — Por que eu não estaria?
Eu pisquei.
— Eu não sei com quem você anda aprendendo a ser irônica.
O som que saiu do Logan foi pequeno. Um risinho contido, mais ar do que riso.
Mas foi o suficiente para eu notar: ele tinha voltado ao controle.
Pelo menos por fora.
Logan se agachou ao lado da Olívia e puxou as mãos dela para as dele. As duas mãos. Como se o gesto fosse uma âncora.
— Meu amor — ele disse, e a voz dele ficou mais baixa, mais cuidadosa. — Eu sei que é uma data difícil pra você. Pra todos nós.
Olívia não desviou o olhar.
Ela tinha aquela firmeza teimosa de quem não aceita que sentimentos mandem.
— Podemos só… — Logan continuou — fazer um bolinho em casa.
Eu abri a boca antes de pensar.
— De jeito nenhum.
Os dois olharam para mim.
Eu me endireitei no sofá do convés, indignada de verdade.
— É o aniversário de um ano do Liam. Tem que ser grandioso. Tem que ter palhaços, e pula-pula, e… — eu fiz um gesto amplo para o mar, como se o mar fosse parte da decoração — o que é que tem em festa de criança bilionária hoje em dia? Um… zoológico particular? Um mini parque de diversões? Uma banda de K-pop infantil?
Olívia arqueou uma sobrancelha.
— Existe K-pop infantil?
— Se não existe, a gente inventa — eu respondi, séria.
Logan me encarou com aquele olhar de alerta.
— Mareu… — ele começou.
Mas eu não deixei.
Porque, se eu deixasse, eu ia ter que encarar o que ele estava tentando dizer.
Eu continuei, atropelando a lógica com convicção.
— Não é justo o Liam carregar esse carma.
A palavra saiu pesada demais, mas eu não consegui recolher.
— Daqui a uns anos, quando ele perguntar sobre as fotos do aniversário de um ano, vocês vão querer mostrar o quê? “Só um bolinho”? — eu fiz aspas no ar. — Um álbum inteiro de “só um bolinho”?
Olívia me observava como se estivesse decidindo se eu era sensata ou um projeto falho.
— Olívia — eu apontei para ela — como foi seu aniversário de um ano?
Olívia respondeu sem hesitar, como se aquela informação estivesse arquivada em uma pasta mental.
— Papai construiu um castelo de princesa pra mim.
Eu fiquei meio chocada.
— Sério?
Logan apertou os lábios.
— Eu projetei — ele corrigiu, com a dignidade de CEO. — Não é como se eu tivesse feito com as próprias mãos.
— Ah, claro — eu disse, porque a diferença era muito importante para alguém. — E onde está esse castelo?
— Na casa da praia de Angra — Logan respondeu.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...