~ MAREU ~
Era manhã do aniversário do Liam.
O que, naquela casa, significava duas coisas coexistindo no mesmo espaço com uma habilidade quase cruel: balões chegando cedo demais, bolo sendo conferido na copa, mensagem de convidados começando a pipocar no celular de todo mundo… e, por baixo de tudo isso, uma ausência tão presente que parecia sentar-se à mesa antes de qualquer pessoa.
Quando entrei na cozinha, Samira estava preparando o café da manhã da Olívia.
Ou, pelo menos, fingindo que estava.
Porque a atenção dela estava toda na menina sentada na bancada, cabisbaixa, mexendo distraidamente na ponta de um guardanapo como se pudesse desfazê-lo fio por fio. Olívia ainda estava de pijama, o cabelo preso de qualquer jeito, e nem sequer tinha começado a performance de mini executiva emocionalmente funcional com a qual costumava encarar o mundo.
Troquei um olhar com Samira.
Foi rápido, mas suficiente.
Samira entendeu na mesma hora, como mulheres boas entendem essas coisas sem precisar de palestra nem legenda. Ela deu uma última mexida na frigideira, desligou o fogo e disse:
— Vou ver se o Liam acordou.
E saiu, nos deixando sozinhas.
A cozinha ficou mais silenciosa.
Não totalmente, porque mansões nunca são silenciosas de verdade. Sempre há um barulho ao longe, uma porta, alguém cruzando corredor, um talher, água correndo em algum lugar. Mas o suficiente para que a tristeza pequena de Olívia pudesse existir sem plateia.
Eu me aproximei da bancada sem pressa e coloquei uma pequena caixa de presente em cima da mesa.
— Me ajuda com isso?
Olívia ergueu os olhos devagar.
— Achei que você já tivesse embrulhado o presente do Liam.
— Não é pro Liam.
Ela olhou para a caixa. Depois para mim.
— Então é pra quem?
Eu puxei o ar com cuidado.
— Pra Laura.
Olívia não respondeu.
Mas também não recuou.
Só ficou olhando por um segundo, muito parada, como se estivesse decidindo se aquilo era bonito ou ridículo ou doloroso demais para ser permitido antes do café da manhã. Depois puxou a caixa para mais perto e levantou a tampa.
Lá dentro havia uma série de coisas pequenas. Pequenas do jeito que só objetos muito importantes conseguem ser.
Fotos dela no balé. Uma da feira de ciências. Um laço de cabelo. Uma mamadeira do Liam. Duas fotos de Logan com os filhos — uma antiga com Olívia ainda menor, outra mais recente, com Liam no colo e aquele ar de homem que ainda não sabia exatamente como segurar um bebê sem parecer que estava administrando uma fusão empresarial. Também tinha a fita da sapatilha de balé da Olívia, lavada e dobrada com cuidado, e mais algumas lembranças que, juntas, não pareciam aleatórias. Pareciam família.
Olívia foi tirando uma por uma em silêncio.
Os olhos dela mudavam um pouco a cada objeto, mas sem desabar. Era mais como se reconhecesse cada pedaço daquele amor em voz baixa.
Peguei um papel dobrado que estava no meio da caixa.
— Liam já fez a cartinha dele.
Abri.
Olívia olhou.
Era a marca do pezinho dele em tinta guache.
Torta.
Borrada.
Absolutamente perfeita.
Ela soltou um risinho pelo nariz antes mesmo de tentar se controlar.
— Acho que está meio babado também.
Eu concordei com a maior seriedade do mundo.
— É só DNA.
Olívia finalmente sorriu.
Um sorriso discreto, mas era um sorriso.
Apoiou o cotovelo na bancada, ainda olhando para a marca do pé do irmão.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...