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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 53

~ MAREU ~

Conhecia.

Claro que conhecia.

O que eu não tinha feito, naquela noite no corredor, era ligar os pontos com calma. Tinha sido tudo rápido. Um copo. Um vestido. Um escândalo elegante. A humilhação servida em louça fina. Eu só tinha visto o tipo de mulher e a certeza de que ela era o tipo que nunca pisaria no chão molhado… mas pisaria em você.

Agora, com ela me olhando como se estivesse puxando um arquivo na cabeça, o sobrenome encaixou com um clique.

Rizzo.

Família Rizzo era daquelas que aparecia nos mesmos lugares que os Valença apareciam. Galas, leilões, inaugurações com champanhe demais e conversas de menos. Gente que parecia ter sido criada com manual de etiqueta e um coração opcional.

Eu lembro de uma vez em que a Paula tinha feito uma garçonete quase chorar num evento daquelas fundações “importantes”. Um guardanapo caiu. Uma taça demorou. E Paula, impecável, soltou um “vocês treinam essas pessoas onde?” tão alto e tão doce que ninguém pôde fingir que não ouviu.

Daí pra frente, foi só pra trás.

Eu tinha pensado, naquela época: que horror.

E depois eu tinha voltado para o meu mundo confortável, onde eu não era a pessoa humilhada.

Até hoje.

Ela me encarava esperando que eu dissesse “não”. Que eu dissesse “imagina”. Que eu fosse o tipo de gente que pede desculpa por existir.

Eu não era.

Eu respirei e respondi.

— Conhece.

Paula piscou, como se eu tivesse falado em outra língua.

— De onde?

Eu apoiei o garfo no prato com cuidado demais. Porque eu queria que a minha voz saísse leve. Mas eu queria, mais ainda, que saísse verdadeira.

— Do corredor do navio — eu disse. — Um copo de água derramado e uma humilhação grátis.

O ar na mesa mudou.

Olívia parou de mastigar. Logan ficou imóvel do jeito dele, que era quase um “prosseguindo”.

Paula riu uma risadinha curta, incrédula, como se aquilo fosse um mal-entendido divertido.

— Ah… aquilo. Não foi bem assim.

Eu levantei uma sobrancelha.

— Não?

— Eu disse que estava tudo bem — ela afirmou, com a tranquilidade de quem reescreve a própria história sem esforço. — Mandei lavar o vestido. Não se preocupe.

Olívia inclinou a cabeça.

— Ela não parece estar preocupada — ela comentou, no tom de quem dá um diagnóstico.

Mas Paula não era do tipo que perdia o controle por causa de uma criança de seis anos e meio. Ela fez o que fazia melhor: ignorou o que não ajudava e voltou para o que queria.

Ela virou o corpo para Logan como se eu tivesse voltado a ser invisível.

— Bom — ela disse, a voz macia. — Temos um encontro, então. Jantar hoje à noite.

Eu senti Olívia me olhar de lado, rápido, como se estivesse anotando a palavra “encontro” numa planilha mental.

Logan respirou uma vez, devagar, e respondeu com aquela frieza educada que parecia feita sob medida para dizer “não” sem dizer “não”.

— Acontece que eu já tinha combinado de jantar com a minha filha.

Paula sorriu, sem perder o brilho.

— Então leve a… — ela fez uma pausa mínima, como se o nome fosse irrelevante. — …Lívia.

Eu e Olívia falamos ao mesmo tempo.

— Olívia.

— Certo — ela disse, e a voz dela voltou a ser macia. — Eu vou avisar.

Ela se levantou devagar, arrumando o vestido como se aquilo fosse um encerramento teatral, e inclinou a cabeça para Logan.

— Um prazer conversar com você, Logan.

Ela não olhou para mim. Não olhou para Olívia. Não olhou para ninguém.

Só virou e foi embora, deslizando pelo bar da piscina como se o mundo abrisse caminho por natureza.

O silêncio que ela deixou atrás foi mais barulhento do que a presença.

Olívia pegou o garfo de novo, analisou uma panqueca e disse, como se estivesse dando continuidade a uma pauta:

— Ela errou meu nome. Não gosto de quem erra meu nome.

Eu assenti com a seriedade de quem estava prestes a concordar com um tratado internacional.

— Não errar o nome é uma ótima qualidade pra se ter. Especialmente na…

Eu parei.

Porque a continuação óbvia na minha cabeça foi cama. E eu não podia dizer isso na frente de uma criança. Por mais que aquela criança fosse Olívia, ainda era uma criança.

Acontece que com a palavra “cama” veio a lembrança inteira da noite anterior — quente, concreta, tangível — como se alguém tivesse apertado replay no pior momento possível.

Eu engoli o resto da frase junto com o ar.

— …especialmente sempre — eu finalizei rápido demais, como se “sempre” pudesse tampar o buraco que eu quase abri.

Eu peguei o copo e bebi um gole grande, desesperado, porque água também servia pra afogar pensamentos criminosos.

Olívia franziu a testa.

— Especialmente sempre é redundante.

— Eu sei — eu respondi, a voz um pouco mais fina do que deveria. — Eu tô… praticando. Hoje eu acordei redundante.

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