~ MAREU ~
Eu ouvi meu nome na voz do Logan e, por um segundo, foi como se o restaurante inteiro tivesse virado um tribunal.
— Mareu? O que está acontecendo?
Eu vi o rosto dele assustado, vi os olhos procurando a Olívia com uma pressa que doía, vi as pessoas olhando como se estivessem assistindo a um espetáculo.
E eu pensei uma coisa muito simples:
Eu não tinha tempo de responder.
Não tinha tempo de responder o Logan querendo explicações.
Não tinha tempo de responder a Paula me chamando de incompetente com aquela “preocupação” ensaiada.
Não tinha tempo de responder aos olhares julgadores de gente que só ama uma tragédia quando ela acontece na mesa do outro.
Eu tinha que agir.
Eu meti a mão na bolsa.
O autoinjetor estava lá, no bolso que eu mesma tinha escolhido pra nunca ter que procurar. Porque o mundo podia ser caótico — e eu também — mas não quando se tratava de vida ou morte.
Só que eu nunca tinha usado.
Nunca.
Eu tinha lido. Eu tinha visto vídeos. Eu tinha assistido mais de uma vez, como quem revê uma cena importante de filme ruim, tentando me convencer de que, se o pior acontecesse, eu não ia travar.
E, sinceramente, se a internet consegue ensinar alguém a trocar uma fralda em quarenta segundos, ela também podia ensinar a salvar uma vida, não é?
— Mareu… — Clara sussurrou, e eu senti a mão dela tocar meu braço. Âncora.
Eu tirei o autoinjetor da bolsa e vi o olhar do Logan bater nele.
O ar ao redor pareceu mudar.
— Você tem adrenalina — ele disse, e a voz dele saiu com uma gratidão bruta, quase raiva de alívio.
— Claro — eu respondi, sem tirar os olhos da Olívia. — Eu sou a babá.
E aí, por cima do ombro do Logan, eu vi Paula.
Ela estava de pé, perfeita, como se estivesse dirigindo uma cena.
— Isso é um absurdo… — ela começou, e eu ouvi o veneno na primeira sílaba.
Eu ignorei.
Porque eu não tinha tempo nem pra odiá-la direito.
— Liv — eu falei, perto do rosto dela. — Vai doer um pouquinho, tá? Mas você vai respirar melhor. Olha pra mim.
Olívia fez um som mínimo, como se quisesse ser forte e o corpo não deixasse.
Eu tirei a tampinha de segurança com os dedos firmes demais. Encostei a ponta do autoinjetor na parte de fora da coxa dela, por cima do tecido, do jeito que eu tinha decorado na marra.
Meu coração batia tão alto que eu achei que alguém ia ouvir.
— Agora — eu murmurei pra mim mesma.
Eu apertei.
O clique foi pequeno, mas pra mim soou como um trovão particular. Eu mantive pressionado, contando no pensamento do jeito mais rápido e mais longo que eu já contei na vida, sem desgrudar os olhos do rosto da Olívia.
O sorriso dela vacilou num canto minúsculo — quase imperceptível — e voltou a ser máscara.
A equipe médica apareceu em minutos que pareceram anos. Dois profissionais, luvas, uma maleta, um rádio chiando, a eficiência fria de quem entra num caos e organiza o caos sem pedir licença.
— Reação alérgica? — um deles perguntou.
— Sim — eu respondi. — Adrenalina aplicada agora. Ela melhorou um pouco, mas ainda tá com dificuldade.
Eles assumiram a cena com rapidez: avaliaram, colocaram oxigênio, falaram “observação”, “hidratação”, “monitoramento”. A palavra “vai ficar bem” não veio na hora, e eu odiei isso.
Olívia segurou minha mão com força, e eu segurei de volta como se fosse um contrato de verdade.
Logan caminhou ao lado da cadeira de rodas com o olhar fixo na filha, como se o mundo inteiro pudesse explodir e ele não piscaria.
Clara foi junto, os olhos brilhando de pânico contido. Henrique seguiu também, o rosto duro.
O restaurante ficou para trás com seus julgamentos e seus pratos bonitos. A tempestade lá fora continuava batendo nas janelas, como se quisesse participar.
No corredor, eu ouvi Henrique falar baixo com Logan — baixo, mas não baixo o suficiente pra eu não ouvir.
— Mareu checou… o garçom garantiu que não tinha castanha no prato. Mas tinha.
Logan não respondeu de imediato. Ele só continuou andando, a mandíbula travada, o corpo inteiro no modo “resolver ou morrer por dentro”.
Então ele falou, num tom que eu conhecia. Frio. Claro. Perigoso.
— Eu sei o que você está pensando.
Henrique respirou.
— Dois incidentes em dois dias — ele disse. — Isso não é coincidência.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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