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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 84

~ MAREU ~

E a tempestade veio. Lá fora e aqui dentro.

Lá fora, o céu escureceu num degradê dramático, o mar ficou com aquela cor de metal polido e, quando o primeiro trovão estourou longe, foi como se o navio inteiro tivesse prendido a respiração junto com ele.

E, por dentro de mim, alguma coisa também.

Era a última noite no Asteria. Eu devia estar feliz por ter sobrevivido ao “spa versão VIP do inferno” e por estar inteira o suficiente pra usar vestido e fingir normalidade. Mas eu tinha aquela sensação de que o universo estava de olho.

Olívia caminhava ao meu lado como se nada abalasse o mundo dela — exceto o fato de que o mundo dela tinha, em geral, a forma do pai. E, no caminho até o restaurante, ela olhou pro corredor como quem procura algo importante.

— Onde o meu pai está? — ela perguntou, com o tom casual demais pra alguém que claramente não estava casual.

— Ele teve uma reunião importante — eu disse. — Mas prometeu que chega pra sobremesa.

O restaurante estava cheio, aquele horário em que todo mundo decide ser sofisticado ao mesmo tempo. Luz baixa, taças tilintando e um piano ao fundo.

Eu puxei a cadeira pra Olívia, me sentei, e foi quando vi — como se fosse inevitável — Clara e Henrique numa mesa próxima.

Clara estava com o cabelo arrumado, sorriso fácil, e Henrique parecia… Henrique. Confortável em qualquer lugar, como se o mundo tivesse sido desenhado pra caber nele. Eles riam de alguma coisa, inclinados um pro outro, e eu senti uma irritação absurda subir.

— Só assistente meu ovo — a frase escapou na minha cabeça com a mesma naturalidade com que eu respirava.

— O quê? — Olívia levantou os olhos.

Eu engoli.

— Ovo. Proteína. Você precisa comer algo além de massa, Liv.

— Mas eu tô de férias.

— Até onde eu me lembro — eu disse, abrindo o cardápio — você está de suspensão escolar e considerando essa viagem como seu castigo particular.

Olívia revirou os olhos com perfeição.

— São férias castigo, mas ainda férias.

Eu ia responder alguma coisa quando a luz do lado de fora piscou por um segundo, quase imperceptível. O trovão veio mais perto, e o navio deu um balanço leve, mas o suficiente pra lembrar que aquilo tudo flutuava.

Eu olhei pela janela e vi a chuva começar de verdade: grossa, inclinada, como se alguém estivesse derramando o céu.

— Eu odeio chuva — eu murmurei, antes de conseguir me controlar.

Olívia olhou pra fora e a boca dela quase sorriu.

— Eu gosto.

— Mesmo dentro de um navio chacoalhando no oceano?

Ela hesitou um microsegundo.

— Aí é um pouco assustador — ela admitiu, baixinho.

E foi tão raro ela admitir qualquer coisa que soasse criança que meu peito apertou com uma ternura que eu não pedi.

Eu ia dizer algo leve, só pra ela não ficar com medo, quando senti… aquele arrepio.

Eu levantei o olhar instintivamente.

Paula estava numa mesa a poucos metros, com os pais. Ela estava impecável, como sempre, e quando nossos olhos se cruzaram, foi como se alguém tivesse passado um dedo gelado na minha nuca.

Eu pisquei, tentando racionalizar.

Era só a tempestade. Era só o clima ruim. Era só meu cérebro traumatizado, procurando ameaça até em guardanapo dobrado.

Paula desviou o olhar primeiro, com a tranquilidade de quem não tem nada a esconder.

A gente fez os pedidos. Olívia, obviamente, escolheu alguma massa. Eu pedi algo “leve” porque ainda estava sob vigilância de uma carcereira mirim.

O garçom anotou, sorriu, e saiu.

A conversa foi indo aos trancos, daquele jeito que conversa vai quando existe uma tempestade do lado de fora e uma coisa não dita pairando do lado de dentro.

Olívia me contou uma teoria sobre como a chuva era “uma forma de organização do caos”, e eu respondi que tudo bem, mas eu preferia o caos seco.

Ela riu de leve.

Os pratos chegaram juntos.

Olívia olhou pro meu e depois pro meu copo.

— Você vai comer. E vai beber água.

— Sim, chefe.

— Sem ironia, por favor.

Eu peguei o garfo e levei uma garfada à boca bem devagar, encarando Olívia como quem diz: feliz, fiscal?

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