~ LOGAN ~
A chuva do dia seguinte era fraca, insistente, quase educada — como se a tempestade da noite anterior tivesse decidido que já tinha feito barulho o bastante para uma viagem inteira.
O Asteria estava atracado. A plataforma de desembarque estava molhada, escorregadia, e o ar tinha aquele cheiro de metal e mar que costuma marcar fim de evento e começo de realidade.
Eu desci com Henrique ao meu lado, cercado por homens que sorriam com a naturalidade treinada de quem mede o mundo em ativos e oportunidade. O navio-vitrine tinha cumprido o papel que eu esperava: transformado luxo em argumento, experiência em planilha, desejo em negociação.
— Foi um sucesso — Henrique disse, baixo, como se estivesse me lembrando de uma conclusão óbvia.
Eu assenti, mas a minha cabeça não estava na lista de interessados nem nos números.
Ela estava alguns metros à frente.
Mareu caminhava com Olívia, Clara ao lado. As três falavam alguma coisa que eu não ouvi, e Olívia gesticulava com seriedade. Mareu sorria de um jeito contido, como quem não quer admitir que está bem ali, presente.
Eu percebi um detalhe que me irritou por ser simples: Mareu estava evitando olhar para mim.
Era uma estratégia. Ou era medo. Ou era culpa. Talvez as três coisas misturadas.
Henrique acompanhou meu olhar e soltou um som quase divertido, mas escolheu que era mais seguro continuar falando de negócios.
— Mesmo com o incidente do spa os negócios não sentiram. As reuniões de ontem fecharam mais interessado do que a gente tinha previsto.
— O spa — eu repeti, e a palavra veio com um gosto de ferrugem.
Henrique parou de andar por um segundo.
— Eu estou investigando — ele disse. — Isso e o jantar.
Eu virei o rosto para ele, só o suficiente para mostrar que eu estava ouvindo de verdade.
— O prato da Olívia.
— Não devia ter castanha. A cozinha garante — Henrique respondeu. — Mas alguém resolveu colocar na finalização. “Detalhe gourmet”, sabe? Só que detalhe gourmet não deveria quase matar uma criança.
A minha mandíbula travou.
Eu olhei de novo para Mareu, instintivamente, como se ela pudesse me devolver alguma certeza com um único movimento.
Ela não olhou para trás.
— Parece um ataque direto — eu murmurei.
Henrique assentiu, mas não com a tranquilidade de quem concorda. Com a tensão de quem soma variáveis.
— Direto, sim — ele disse. — Só não está claro a quê.
Ele respirou fundo e baixou o tom, como se a chuva pudesse carregar palavras.
— Ao Logan Novak? À Novak A&S Group? Ao navio como vitrine? Ou… À Maria Eugênia Valença.
Henrique me encarou, esperando minha reação.
Eu devolvi o olhar com a frieza que eu tinha treinado para reuniões difíceis. Só que aquilo não era reunião. Aquilo era a minha casa entrando em rota de colisão com algo desconhecido.
— Você acredita nisso? — eu perguntei.
Eu não dei a ela a chance de fugir.
— Mareu — eu chamei, e a minha voz saiu firme demais.
Ela parou.
— No meu escritório — eu disse.
Ela assentiu uma vez, seca.
Eu entrei primeiro. O cheiro de madeira, papel e controle me recebeu como uma máscara. Eu caminhei até a mesa e fiquei de pé, esperando.
Mareu entrou e ficou a uma distância segura, como se a distância pudesse desfazer o que aconteceu entre nós naquele navio. O cabelo dela ainda estava um pouco desalinhado da viagem, e aquilo deveria ser irrelevante. Mas não era.
Eu inspirei devagar.
— Mareu… nós precisamos… conversar.
Ela soltou um suspiro alto, teatral, como se estivesse cansada de ser convocada para o caos dos Novak.
— Olha — ela disse — não precisa rodear, tá? Eu sei o que você vai falar. Só faz logo.
Eu franzi a testa.
— Você sabe?
— Sei — ela confirmou, firme demais para alguém que parecia prestes a perder o chão. — Você vai me demitir.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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