A mão de Rafael permaneceu suspensa por um segundo a mais do que deveria.
Então ele pareceu voltar a si.
Baixou o braço rápido demais, como se tivesse se queimado no próprio gesto. Um lampejo de constrangimento atravessou seus olhos. Algo próximo de arrependimento. Próximo demais do pânico.
Lorena desviou o rosto.
Não conseguiu encará-lo.
- Lorena… - ele sussurrou.
A voz saiu quebrada. Baixa. Só para ela.
- Me desculpa.
As pernas dele fraquejaram por um instante. Rafael sempre tivera um temperamento difícil, explosivo quando contrariado. Mas aquilo… aquilo tinha sido diferente. Pela primeira vez, ele quase bateu na mulher que amava loucamente.
E isso o aterrorizou.
As mesas ao redor estavam em silêncio.
Clientes fingiam interesse nos pratos, mas os olhos acompanhavam cada movimento, cada respiração, como se assistissem a uma cena de novela ao vivo. O gerente observava de longe, rígido, sem coragem de intervir.
Rafael passou a mão pelo rosto.
- Vamos conversar em casa - pediu, a voz diferente. Menos comando. Mais súplica. - Por favor.
Deu um passo em direção a ela.
- Eu estou enlouquecendo sem você.
As palavras vieram cruas, desarmadas. Por um instante, Lorena sentiu o peso do passado tentar se infiltrar. As promessas. As vezes em que ele jurara não saber viver sem ela.
Ela abriu a boca para responder.
Não teve tempo.
- Vocês dois estão muito exaltados - a voz de Nina entrou suave demais, doce demais. - Assim ninguém vai chegar a lugar nenhum.
O estômago de Lorena revirou.
Aquele tom sempre lhe causava antipatia. Antes, ela não sabia explicar por quê. Agora sabia. Era falso. Calculado. Um insulto disfarçado de cuidado.
Nina levantou-se com calma, pousando a mão no braço de Rafael.
- Rafa, me deixa conversar um pouco a sós com a Lolô - disse, sorrindo para ele. - Só nós duas. Mulheres se entendem melhor.
O diminutivo soou como uma afronta.
- Vamos tomar um ar - continuou Nina, já se voltando para Lorena. - Eu vi que tem um jardim lindo logo na entrada. Vai fazer bem pra todo mundo.
Rafael hesitou.
O olhar foi de Lorena para Nina, confuso, dividido, ainda à beira do descontrole.
- Só alguns minutos - Nina insistiu, macia. - Depois vocês conversam com calma.
- Cinco minutos - Lorena disse, fria, encarando Nina pela primeira vez. - Só isso.
O sorriso de Nina se alargou, satisfeito.
- Claro.
Ela se virou e seguiu em direção à saída.
Lorena a acompanhou.
Assim que atravessaram a porta de vidro, o ar mudou.


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