O fim do expediente na Nexus Tech tinha um ritmo próprio de telas escurecendo, o barulho surdo de cadeiras sendo empurradas.
Lorena pegou a bolsa e saiu discando enquanto ainda estava no elevador.
A mãe atendeu no segundo toque.
- Mãe, tô saindo agora da empresa. Amanhã eu chego cedo ai.
- Ainda bem. Eu tava preocupada que você fosse ligar cancelando.
- Mãe. - Lorena riu. - Eu não ia cancelar.
- Amanhã cedo eu pego a estrada.
- Tô te segurando na palavra. - A voz da mãe ficou mais animada. - Falei pra sua tia que você vem, ela já está fazendo compota de goiaba. Me perguntou que tipo de doce seu marido gosta.
- Ah, o Dante não come muito açúcar.
Uma pausa curta do outro lado.
- Não come açúcar?
- Bom, então vou dizer pra sua tia que faça qualquer uma. Porque se o marido não come, nossa formiguinha aqui come pelos dois.
Lorena riu, relaxada.
- Quem é formiguinha?
- Você, desde que nasceu. Não me venha com essa.
O elevador abriu no térreo.
Lorena atravessou o saguão com o telefone no ouvido, a bolsa no ombro, o passo leve de quem já estava mentalmente em casa.
- E o Dante não vem não? - a mãe perguntou, o tom mudando levemente, aquele jeito de quem já sabe a resposta mas pergunta assim mesmo.
- Não, ele tá viajando a trabalho. Por isso aproveitei pra marcar.
- Que pena. Seu pai queria conhecer ele direito.
- Vocês querem interrogar ele que eu sei.
- Saber as intenções dele direitinho não é interrogatório. É diligência.
- Mãe...
- Você é minha filha. Deixa eu ser mãe em paz.

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