Ela não sabia quando havia perdido a consciência.
A última coisa que recordava era a picada rápida, quase imperceptível na lateral da coxa e depois o mundo havia simplesmente... inclinado. As vozes ao redor ficaram distantes, as bordas da visão escureceram.
Quando os olhos abriram pela primeira vez, a vista estava turva.
O ambiente balançava levemente ou era ela. Um zumbido baixo de motor. Ar frio e seco. Lorena piscou várias vezes tentando focar, e aos poucos o mundo foi se montando em pedaços: couro bege, janelas ovais, a luz fria de um interior de aeronave.
Um jato.
Os braços não obedeceram quando tentou movê-los. Imobilizados nos apoios da poltrona - não com força bruta, mas com precisão. Alguém havia feito aquilo com cuidado.
Ela virou a cabeça devagar. O sedativo ainda pesava atrás dos olhos.
Do outro lado do corredor, numa poltrona reclinada, uma silhueta que ela reconheceu antes mesmo de focar completamente.
Rafael.
E à sua frente, Nina uma mão pousada no ventre, o rosto fechado, os olhos evitando os de Lorena com uma determinação que parecia custar esforço.
O sedativo puxou de volta antes que ela conseguisse pensar em mais alguma coisa.
Ela acordou e dormiu mais duas vezes sem conseguir segurar a consciência por tempo suficiente para fazer algo útil com ela.
Quando finalmente abriu os olhos de verdade, o teto era diferente.
Madeira clara. Uma janela. O som, ela levou um segundo para identificar - ondas.
A cama era macia, os lençóis cheiravam a lavanda, e havia um braço em torno da sua cintura.
O corpo soube antes do cérebro.
Ela reconheceu o abraço pelos anos em que havia significado segurança. Pelo peso específico do braço, pelo calor, pelo ritmo da respiração. O cérebro catalogou tudo em menos de um segundo e mandou um sinal de alarme que varreu qualquer resquício de sedativo que ainda restava.
Ela tentou se soltar.
O braço apertou.
- Amor. - A voz era baixa, sonolenta, satisfeita. - Enfim acordou.
Lorena empurrou com os dois braços ao mesmo tempo, rolou para o lado e saiu da cama antes que ele pudesse reagir. Os pés tocaram o chão frio e ela recuou até sentir a parede atrás das costas.
Rafael ficou deitado por um momento, olhando para ela.
Depois se sentou devagar, passando as mãos pelo cabelo com aquela calma que ela havia aprendido a temer mais do que os gritos.
- Lolô. - O tom era de quem fala com uma criança assustada. - Vamos tirar umas férias. Tudo vai voltar a ser como antes.
Lorena não respondeu. Os olhos varriam o quarto em movimentos rápidos - porta, janela, distâncias. Uma janela enorme ocupava quase toda uma parede, do chão ao teto, cortinas finas se movendo levemente. Apesar de ser noite, a lua iluminava o suficiente para ver.
Praia.
Areia. Ondas quebrando em sequência lenta e indiferente.
O som que havia passado a vida inteira achando relaxante soava agora como uma sentença de morte.
- Volta pra cama. - Rafael se levantou. - Para de ficar com essa cara de medo, sou eu.

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