O médico surgiu no corredor com o semblante profissional de quem já aprendera a reconhecer pânico antes mesmo de ouvir a pergunta.
- Está tudo bem - disse, direto. - Sua esposa está estável. O bebê também.
Rafael não respondeu de imediato.
Os olhos estavam escuros demais.
- Ela não é minha esposa - corrigiu, a voz baixa, dura.
O médico piscou, desconcertado, murmurou um pedido de desculpas e se afastou.
Rafael entrou no quarto sem bater.
Nina estava recostada na cama, pálida, com as mãos pousadas sobre o ventre, frágil demais. Quando o viu, seus olhos se encheram de lágrimas contidas.
- O que aconteceu entre você e a Lorena? - ele perguntou.
Não havia preocupação ali.
Nina sentiu o tom acusatório. Mesmo sendo ela quem estava na cama de hospital.
- Rafa… - disse, com cuidado. - Eu acho que a Lolô não vai aceitar essa criança.
A expressão dele endureceu ainda mais.
- Não a chame assim - cortou. - Ela não gosta que estranhos usem esse apelido.
Os olhos de Nina marejaram.
- Tudo bem… - murmurou. - Mas eu preciso te pedir uma coisa.
Ela respirou fundo, como se aquilo lhe custasse coragem.
- O que aconteceu entre a gente ainda me dá muita culpa.
Rafael empalideceu.
- O que você quer, Nina?
- Por favor… - a voz dela vacilou no ponto exato. - Não deixe a Lorena ficar perto de mim até o bebê nascer. Eu realmente não sei do que ela seria capaz agora.
Algumas lágrimas escorreram.
Calculadas. Lentas.
- A Lorena não faria mal a ninguém - Rafael afirmou, automático.
E então se lembrou.
Do ódio nos olhos dela.
Do tom.
Você sabe bem o motivo.
Ele hesitou.
- Eu sei que ela é uma pessoa maravilhosa - Nina continuou, apertando as mãos dele como quem implora. - Mas as emoções dela estão instáveis.
Ela acariciou o próprio ventre.
- Por favor… deixa ela se acalmar longe de nós.
Rafael puxou as mãos.
- Não se preocupe - disse, seco. - Eu vou levá-la para nossa casa. Ela nunca gostou da casa da minha mãe mesmo. Foi um erro ficarmos lá tanto tempo depois da morte do meu irmão.
As palavras carregavam mais do que pareciam. Era arrependimento.
- Tudo bem - Nina assentiu. - Mas você não precisa se afastar do bebê.
Rafael respondeu apenas com um murmúrio indistinto e saiu do quarto.
No corredor, uma enfermeira especializada em gestantes aguardava.
- Entre - ele ordenou. - Cuide da senhora Nina. Qualquer coisa, ligue direto para o meu assistente.
Nelson, que observava tudo de lado, franziu o cenho.
- Rafael… - começou. - O que exatamente aconteceu entre você e a sua cunhada?
Rafael não respondeu.
Nelson se serviu de um copo. Aquela história não parecia que ia terminar bem.
- Eu juro que senti o perfume da Lorena - Rafael disse, a voz distante. - Até a camisola… era ela.
O silêncio ficou pesado.
- Mas quando acordei… eu estava no quarto da Nina.
Nelson se engasgou com a bebida.
- Minha Nossa Senhora…
- E então… - Rafael engoliu em seco. - Aconteceu.
Nelson passou a mão no rosto.
- Mas pra mim… - Rafael murmurou. - Foi com a Lorena que eu dormi, eu ouvi sua voz, o perfume...
O silêncio se estilhaçou.
- Meu Deus… - Nelson sussurrou.
Ele se serviu de outra dose. Dessa vez, para os dois.
Rafael bebeu tudo de uma vez.
- Puta que pariu… - Ele ficou pensativo por um instante - Então agora eu entendo - Nelson disse, devagar. - Por que você não pensou numa barriga de aluguel pra você e a Lorena… e sim teve um filho com a cunhada.
Rafael ficou em silêncio por um instante.
- Eu pensei em fazê-la abortar - confessou. - Mas… eu não podia matar meu segundo filho.
A garrafa ficou vazia entre eles.
E o peso daquela verdade se instalou no ambiente.
Algumas escolhas não têm volta.
E algumas mentiras… nunca ficam enterradas para sempre.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Ele Teve um Filho com Outra - Casei com o CEO que Ele Odeia