Por um instante, Lorena desejou desaparecer.
- Gente… - ela murmurou, sentindo o rosto esquentar. - Não é nada disso.
Ninguém pareceu escutá-la.
Beto ria. Os outros comentavam. Os estagiários cochichavam no fundo da sala. Janaína já havia se retirado, mas o olhar que lançou antes de sair foi o suficiente para que Lorena soubesse que aquela história não acabaria ali.
Do outro lado da cidade, Dante estava no escritório, mas a mente não acompanhava os códigos na tela.
As últimas semanas tinham sido estranhas.
Lorena chegava em casa tarde. Quando não estava trabalhando, estava estudando. Quando não estava estudando, estava cansada demais para conversar.
Ele entendia. Ou pelo menos tentava.
Ela finalmente tinha encontrado algo que amava. Algo que a fazia sorrir de verdade. Algo que trazia de volta aquele brilho nos olhos que ele lembrava tão bem, o mesmo brilho daquela noite fria, oito anos atrás, quando ela entrou na água gelada sem pensar duas vezes e o tirou de um lugar escuro que ele não sabia se algum dia conseguiria sair sozinho.
Ele devia estar feliz.
E estava.
Mas também se sentia sozinho.
Os jantares a dois tinham virado refeições rápidas na mesa da cozinha, com ela respondendo mensagens do escritório entre uma garfada e outra. Os fins de semana, antes preenchidos com passeios, filmes e preguiça na cama, agora eram dominados por pilhas de processos, pesquisas jurídicas e prazos que nunca acabavam.
Ele não reclamava. Não podia reclamar. Ela merecia isso.
Mas doía.
Theo apareceu na porta do escritório naquela tarde, com a mochila nas costas e um sorriso largo no rosto.
- Fim de semana que vem tem trilha. Vou eu e a Clara. Topa?
Dante ergueu os olhos do monitor. Pensou em responder que sim. Pensou em dizer que adoraria. Mas a imagem de Lorena, curvada sobre os livros na mesa da sala, com os olhos vermelhos de cansaço e a expressão de quem não dormia direito há dias, veio à mente.
- Vou perguntar para a Lorena.
- Você já sabe a resposta.
Dante não respondeu.
Theo suspirou.
- Ela vai dizer que tem trabalho extra.
- Eu sei.
- Então por que perguntar?
Porque ainda tinha esperança. Porque ainda acreditava que, em algum momento, ela ia olhar para ele e dizer "vamos". Porque, no fundo, ele sabia que aquele brilho nos olhos dela era o mesmo que ele jurou proteger há oito anos, quando ela o salvou.
Ele só não imaginava que proteger alguém pudesse doer tanto.
No escritório de advocacia, o relógio marcava quase sete da noite.
Lorena ainda encarava a tela do computador.
O relatório que Janaína mandara refazer estava aberto novamente. Ela já havia revisado cada parágrafo, cada vírgula, cada jurisprudência citada. Não havia erro. Não havia fragilidade. Mas ainda assim, ela lia e relia, como se pudesse encontrar alguma coisa que justificasse a rejeição da colega.
- Você ainda está mexendo nisso? - perguntou Bruno, aparecendo na porta da sala.
Ela ergueu os olhos.
- Resolvi revisar.
- Por causa dela?
- Porque talvez eu tenha deixado passar alguma coisa.
Bruno puxou uma cadeira e sentou ao seu lado.
- Mostra.
Os minutos passaram. Depois uma hora. Aos poucos, o escritório foi esvaziando. As conversas desapareceram. Os telefones silenciaram. Até restarem apenas eles dois e o brilho frio dos monitores.
- Esse trecho aqui - disse Bruno, apontando para a tela. - Ficaria melhor separado.
Lorena aproximou a cadeira.
- Assim?
- Não. Mais acima.
Ela se inclinou para enxergar melhor.
- Aqui?
- Isso.
Os dois sorriram ao mesmo tempo quando o parágrafo finalmente ficou como queriam. O alívio no rosto de Lorena era tão genuíno que Bruno não pôde deixar de rir.
- Você é teimosa, sabia?

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