O voo de Dante aterrissou no fim da tarde.
Lorena estava no saguão de desembarque quando ele apareceu. Esperou que o rosto dele iluminasse ao vê-la como acontecia antes. Que os olhos cansados encontrassem os dela e, por um segundo, o cansaço desaparecesse.
Não foi o que aconteceu.
Dante a viu. Seus olhos passaram por ela como se ela fosse parte da paisagem. O rosto fechado, a expressão dura, os ombros tensos.
- Oi - ela disse, aproximando-se.
- Oi.
Não a beijou. Não tocou seu rosto. Não segurou sua mão.
Apenas passou direto, em direção à saída.
Lorena sentiu o gelo.
No carro, o silêncio era insuportável.
Dante não olhava para ela. Os olhos fixos na estrada, as mãos no volante, a mandíbula travada. Lorena tentou puxar conversa.
- Como foi a viagem?
- Bem.
- Conseguiu fechar os contratos?
- Sim.
Uma pausa.
- Senti sua falta.
Ele não respondeu.
O aperto no peito de Lorena ficou mais forte.
- Dante… o que está acontecendo?
- Nada.
- Você está estranho.
- Estou cansado.
- Não é só cansaço.
Ele não respondeu.
O carro parou em frente a garagem da mansão. O controle do portão elétrico falhou, Dante abriu a janela e um dos seguranças fez um sinal que iria abrir pra ele. O silêncio voltou, mais pesado do que nunca.
Enquanto esperavam, Lorena não se conteve mais.
- Dante.
Ele virou um pouco o rosto para ela.
- Eu preciso saber o que está acontecendo - ela disse, a voz falhando. - Você mal fala comigo. Não me olha. Não me toca. Passou uma semana fora e mal respondeu minhas mensagens.
- Eu estava trabalhando.
- Você sempre trabalhou, e nunca foi assim.
Dante se virou.
O olhar estava diferente. Não era o homem que a beijava na cozinha pela manhã. Não era o homem que a puxava para o colo no escritório.
Era um estranho.
- Se você não me ama mais - Lorena disse, a voz tremendo - então me fala.
Dante congelou.
Por um segundo, apenas a encarou.
Lorena sentiu os olhos queimarem.
Não podia continuar ali.
Não conseguia.
Antes que as lágrimas caíssem, abriu a porta do carro.
O ar frio da tarde atingiu seu rosto.
- Lorena...
Ela fingiu não ouvir.
Precisava se afastar.
Precisava respirar.
Deu alguns passos pela rua silenciosa, abraçando os próprios braços como se pudesse impedir o coração de se partir.
Atrás dela, ouviu a porta do carro bater.
Dante vinha atrás.
- O quê? - O rosto dele contraiu-se em uma expressão que ela não soube nomear. Não era raiva. Não era tristeza. Era algo pior uma dor que ele estava segurando há dias.
- Eu posso aceitar. Vai doer, mas eu aceito. Só não continua fazendo isso comigo.
A garganta dela queimava.
- Eu não aguento mais não saber o que está acontecendo.
Dante soltou uma risada curta.
Sem humor.
Sem alegria.
Só cansaço.
- Você acha que eu não amo você?
- Então por que está me tratando assim?
A pergunta ficou suspensa entre os dois.
O vento da tarde atravessou a rua silenciosa.
Dante desviou o olhar.
Passou a mão pelo rosto.
E, pela primeira vez desde que voltou, pareceu derrotado.
- Porque eu não sabia como olhar para você sem pensar nisso.
Ele tirou o celular do bolso.
Alguns toques.
Então estendeu a tela para ela.
- Nisso.
Lorena pegou o aparelho.
Olhou.
E sentiu o sangue abandonar seu rosto.
A foto.
Ela e Bruno.
Muito próximos.

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