Rafael viu Lorena se mover.
O que aconteceu depois não durou mais do que alguns segundos.
Ainda assim, sua mente registrou cada instante como se o mundo inteiro tivesse entrado em câmera lenta.
Inicialmente, não entendeu.
O cérebro simplesmente se recusou a aceitar o que os olhos mostravam.
Ela correu.
Não para ele.
Não para se salvar.
Não para fugir.
Correu para Dante.
Os cabelos voaram atrás dela. Os pés bateram contra o asfalto. O vestido se agitou ao redor do corpo enquanto ela atravessava a distância que os separava.
E então ela o empurrou.
Com toda a força que tinha.
Sem hesitar.
Sem pensar.
Protegendo-o.
Escolhendo-o.
O mundo pareceu desacelerar.
Rafael viu os dedos dela se fecharem no paletó de Dante.
Viu o corpo dele ser lançado para o lado.
Viu o instante exato em que ela ocupou o lugar que deveria ser dele.
Então o impacto aconteceu.
O corpo de Lorena foi lançado contra o capô.
O som ecoou pela rua como uma explosão.
Depois ela desapareceu da frente do carro.
Atirada contra o asfalto.
Imóvel.
E tudo dentro dele parou.
Não.
A palavra surgiu como um grito.
Não.
Não.
Não.
O pé continuou pressionando o acelerador.
Mas Rafael já não sabia o que estava fazendo.
Tudo o que conseguia ver era Lorena.
Lorena caída.
Lorena sangrando.
Lorena imóvel.
A verdade o atingiu com mais força do que qualquer colisão.
Ela escolheu Dante.
Não quando assinou papéis.
Não quando colocou uma aliança no dedo.
Não quando mudou de casa.
Aquilo tudo podia ser explicado.
Podia ser combatido.
Podia ser revertido.
Mas aquele momento não.
Naquele instante não existiam mentiras.
Não existiam conveniências.
Não existiam dúvidas.
Quando a morte apareceu diante deles, Lorena fez sua escolha.
E não foi ele.
Ela escolheu Dante.
Sem hesitar.
Sem olhar para trás.
Sem sequer pensar.
O peito de Rafael se contraiu.
Uma lembrança atravessou sua mente.
Lorena sorrindo para ele anos antes.
Lorena acreditando nele.
Lorena segurando sua mão.
Por muito tempo ele tinha alimentado a fantasia de que aquilo ainda existia em algum lugar.
Que ela apenas estava confusa.
Que Dante era uma vingança.
Que, no fundo, ela ainda pertencia a ele.
Mas agora entendia.
Nunca pertenceu.
E, pela primeira vez, a realidade atravessou todas as desculpas que ele havia construído para si mesmo.
O grito que rasgou sua garganta não parecia humano.
Era raiva.
Era dor.
Era derrota.
Era o som de um homem assistindo à morte da própria ilusão.
Rafael girou o volante com violência.
O carro respondeu tarde demais.
O pneu dianteiro subiu no meio-fio.
O veículo perdeu aderência.
Rodou.
Uma vez.
Duas.
As luzes da rua se transformaram em riscos luminosos.
A mansão desapareceu.
A árvore surgiu.
Então veio a colisão.
O impacto foi brutal.
A árvore centenária permaneceu imóvel.
O carro não teve a mesma sorte.
O estrondo sacudiu a rua inteira.
Metal se retorceu.
Vidros explodiram.
O capô dobrou sobre si mesmo.
O para-brisa estilhaçou.
E tudo ficou em silêncio.

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