Lorena acordou antes do despertador tocar.
Por alguns segundos ficou imóvel, olhando para o teto do quarto do hotel, tentando organizar os pensamentos que pareciam embaralhados desde a noite anterior. O sono tinha sido raso, interrompido por lembranças que vinham e iam como ondas.
Rafael.
O restaurante.
O vídeo que Dante lhe mostrou.
E aquela frase que ainda ecoava na cabeça.
“Rafael não vai te deixar escapar tão fácil.”
Ela se virou na cama, passando a mão pelo rosto.
Sabia que era verdade.
Durante anos, enquanto Rafael a cortejava com uma insistência quase sufocante, Lorena já tinha percebido como ele podia ser difícil de contrariar. Na época aquilo parecia apenas intensidade, um amor obstinado.
Agora, olhando para trás, percebia que também havia algo mais ali.
Controle.
Ela pegou o celular na mesa de cabeceira.
Uma nova mensagem havia chegado.
Era da corretora de imóveis.
“Bom dia, Lorena. Conversei com o proprietário. Para fechar o contrato precisamos de um fiador ou o depósito de seis meses de aluguel adiantado.”
Lorena soltou um suspiro baixo.
Fiador ela não tinha.
Os pais viviam em outra cidade e jamais teriam renda suficiente para isso. E, depois de tudo que aconteceu, ela também não queria envolvê-los.
O dinheiro que possuía era escasso. Algumas centenas em uma conta antiga que quase não usava.
O restante era o que ainda sobrava dos vinte mil reais que tinha conseguido com a venda do anel de casamento.
Por um momento ficou olhando para o maço de dinheiro dentro da mala.
Era estranho pensar que aquele anel, que um dia simbolizou um futuro inteiro, agora era apenas um valor convertido em sobrevivência.
Seis meses adiantados.
Aquilo consumiria boa parte do dinheiro.
Mas ela não tinha muita escolha.
Lorena endireitou as costas na cama.
Se queria mesmo começar de novo, precisava dar o primeiro passo.
Mesmo que fosse um passo caro.
Digitou a resposta confirmando que faria o depósito.
Depois levantou-se para tomar banho, tentando ignorar o peso estranho que insistia em apertar seu peito.
Era um pressentimento difícil de explicar.
Talvez fosse apenas o medo natural de quem estava começando do zero.
Ou talvez fosse a lembrança da noite anterior… e da certeza inquietante de que Rafael ainda não tinha terminado com ela.
Uma hora depois, Lorena saiu do hotel.
O dia estava claro, o movimento da cidade já intenso. O metrô despejava gente nas calçadas, carros avançavam lentamente pelas avenidas e o barulho cotidiano parecia indiferente ao caos silencioso que ela sentia por dentro.
Ela pegou um táxi até o endereço que a corretora havia enviado.
O prédio ficava em uma rua tranquila, a poucas quadras de uma estação de metrô. Não era luxuoso, mas era limpo e bem cuidado. Havia câmeras na entrada e um porteiro atento observando o movimento da rua.
Segurança.


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