Lorena chegou alguns minutos antes das dez.
A padaria ficava em uma esquina elegante do centro, com grandes janelas de vidro que exibiam bandejas perfeitamente organizadas de doces delicados. O cheiro de manteiga, chocolate e café recém-passado escapava pela porta sempre que alguém entrava ou saía.
Por um instante, ela se permitiu sentir esperança.
Arrumou discretamente o cabelo, respirou fundo e empurrou a porta.
O sino acima dela tocou suavemente.
A mulher que ela havia visto no dia anterior estava atrás do balcão.
Assim que levantou os olhos e reconheceu Lorena, sua expressão mudou para algo entre constrangimento e pressa.
- Ah… você veio para a entrevista, certo?
- Sim - respondeu Lorena com um pequeno sorriso. - Dez horas.
A mulher hesitou.
E então soltou um suspiro.
- Eu sinto muito… mas a vaga já não está mais disponível.
Lorena piscou.
- Como assim?
- Ela foi preenchida esta manhã.
Por alguns segundos Lorena ficou em silêncio, tentando processar a informação.
- Mas… ontem você disse que as entrevistas seriam hoje.
- Eu sei - respondeu a mulher, claramente desconfortável. - Mas apareceu alguém com mais experiência.
Lorena assentiu devagar.
Por dentro, algo se apertou.
Não era a primeira vez que algo assim acontecia nos últimos dias.
Mas, ainda assim, ouvir aquilo doía.
- Entendo - disse, forçando um sorriso educado.
Ela já estava prestes a sair quando o cheiro doce vindo das vitrines chamou sua atenção novamente.
Seu estômago lembrou que ela praticamente não havia comido nada desde a manhã.
Lorena respirou fundo.
Já que estava ali…
- Você poderia me servir uma fatia daquela torta? - perguntou, apontando para uma das vitrines.
A mulher pareceu aliviada com a mudança de assunto.
- Claro.
Alguns minutos depois Lorena estava sentada em uma pequena mesa próxima à janela, com um prato diante de si.
Torta de chocolate belga.
A cobertura brilhava sob a luz suave do ambiente, e o aroma intenso de cacau era quase reconfortante.
Ela pegou o garfo e cortou um pequeno pedaço.
O sabor era rico, profundo, quase luxuoso demais para aquele momento da vida dela.
Lorena mastigou devagar, olhando para a rua através da grande janela de vidro.
Pessoas passavam apressadas.
Carros deslizavam pela avenida.
A cidade continuava seu ritmo indiferente.
Então algo chamou sua atenção.
Um homem parado do outro lado da rua.
Alto.
Terno escuro.
Postura rígida.
Lorena franziu levemente a testa.
Seu coração deu uma pequena batida fora do ritmo.
Ela já tinha visto aquele homem antes.
Poucas vezes.
Mas o suficiente para reconhecer.
Era um dos seguranças de Rafael.
Não um dos que ficavam sempre dentro da casa.
Aquele fazia serviços externos.
De repente, a torta perdeu completamente o sabor.
Lorena ficou imóvel, o garfo suspenso no ar.
O homem fingia olhar o celular.
Mas, em intervalos regulares, levantava os olhos na direção da padaria.
Na direção dela.
E então, como peças de um quebra-cabeça se encaixando brutalmente em sua mente, Lorena entendeu.
A vaga de emprego desaparecendo.
As respostas vagas em todos os lugares onde deixava currículo.
O dinheiro sumido.
Nada daquilo era coincidência.
Rafael.
Ele estava fazendo aquilo.
Cercando-a.
Como um animal.
Esperando que ela ficasse sem saída.
Para então voltar… para a jaula.
Uma dor aguda começou a pulsar em sua cabeça.
Lorena levou a mão à têmpora, tentando controlar a pressão crescente.
Seu peito apertou.
A determinação que ela vinha reunindo com tanto esforço nos últimos dias parecia, de repente, frágil.
Ridiculamente frágil.
Ela havia acreditado que poderia simplesmente recomeçar.
Arrumar um emprego.
Construir uma nova vida.
Mas Rafael era mais poderoso.
Mais paciente.
Mais cruel.
Uma lágrima escorreu pelo canto de seu rosto antes que ela percebesse.
Depois outra.
Lorena limpou rapidamente, mas outras vieram.



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