Lorena desceu as escadas do metrô com passos lentos.
O eco dos sapatos no concreto parecia alto demais naquele horário da noite.
Ela passou pela catraca e caminhou até a plataforma.
O metrô não demoraria mais que alguns minutos.
Apesar dos anos vivendo naquela cidade, Lorena já havia esquecido os ritmos silenciosos dela. Depois de tanto tempo vivendo em um mundo à parte - um mundo onde nada realmente importava além das regras de outra pessoa - as pequenas rotinas da vida comum haviam se apagado da memória.
O horário em que as ruas ficavam vazias.
O horário em que os trens passavam mais rápido.
O horário em que as pessoas voltavam para casa.
A estação estava mais vazia agora.
Poucas pessoas esperavam perto da faixa amarela.
Um homem de meia-idade lia um jornal dobrado, completamente absorto nas manchetes.
Uma mulher mais velha segurava duas sacolas de compras, olhando cansada para os trilhos.
Dois jovens conversavam baixo perto da parede de azulejos, rindo de algo no celular.
Nada de anormal.
Nada de ameaçador.
Apenas mais uma noite comum na cidade.
Lorena encostou-se em um dos pilares de concreto.
O frio da superfície atravessou o tecido fino da blusa, fazendo-a arrepiar levemente.
Ela respirou fundo.
Pela primeira vez naquele dia, sentiu que podia relaxar um pouco.
O som distante do trem começou a ecoar pelos túneis.
Um sopro de vento percorreu a plataforma.
Algumas folhas de papel esquecidas no chão se moveram, deslizando pelo piso sujo.
O ar vibrou com o tremor metálico que anunciava a aproximação do metrô.
E então…
Algo mudou.
Lorena não soube explicar exatamente o quê.
Mas seu corpo percebeu antes de sua mente.
A pele do braço se arrepiou.
Um frio estranho subiu pela espinha.
Uma sensação antiga.
Instinto.
Perigo.
Ela levantou o olhar lentamente.
E então virou o rosto.
Dois homens estavam parados a poucos metros dela.
Não estavam ali antes.
Tinham surgido do nada.
Ternos escuros.
Postura rígida.
Olhos fixos nela.
Lorena sentiu o coração disparar.
Por um instante pensou nos homens de Rafael.
Os que a seguiam pelas ruas.
Os que observavam de longe.
Mas não.
Esses eram diferentes.
O olhar deles não era de vigilância.
Era de caça.
O tremor nos trilhos aumentou.
As luzes do vagão surgiram no túnel escuro.
O vento agora soprava mais forte pela plataforma.
Os dois homens começaram a andar.
Na direção dela.
Passos firmes.
Silenciosos.
Lorena recuou instintivamente.
O corpo reagiu antes da mente.
O trem entrou na estação com um rugido metálico.
As portas se abriram.
Gente descendo.
Gente subindo.
Passos rápidos.
Movimento.
Confusão.
Lorena tentou se misturar.
Entrar no fluxo.
Desaparecer entre as pessoas que subiam para o vagão.
Mas uma mão fechou-se em seu braço.
Firme.
Fria.
Lorena congelou.
- Com a gente - a voz veio baixa, direta no ouvido.
O homem estava perto demais.
O cheiro de colônia forte misturado com algo metálico.
Lorena abriu a boca para gritar.
O som não saiu.
O medo travou sua garganta.
Os dois homens a conduziram para um canto mais escuro da plataforma.
Longe das câmeras.
Longe do fluxo de pessoas.
Ninguém via.
Ninguém olhava.
A cidade seguia indiferente.


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