O silêncio que se seguiu não foi apenas pesado.
Foi devastador.
Rafael não se moveu.
Por um segundo, parecia que o mundo inteiro havia parado dentro daquela sala pequena. O ar ficou denso, difícil de respirar.
Os olhos dele estavam fixos nela.
Mas a mente… a mente parecia muito longe dali.
- Não…
A palavra saiu rouca.
Quase inaudível.
Lorena não desviou o olhar.
- Não foi assim - ele continuou, balançando a cabeça lentamente, como se tentasse afastar um pesadelo. - Aquilo foi um acidente.
- Um acidente?
Ela repetiu a palavra como se fosse algo amargo.
Rafael passou as mãos pelo rosto.
A respiração pesada.
- Eu nunca quis que aquilo acontecesse.
- Mas aconteceu.
A voz dela saiu baixa.
Firme.
- Porque você estava dirigindo como um louco.
Rafael apertou os punhos.
- Nós estávamos discutindo!
- Nós estávamos discutindo porque você estava tentando controlar até a forma como eu respirava!
A voz de Lorena cortou o ar.
Os olhos dela brilhavam agora.
Mas ainda não havia lágrimas.
- Você lembra disso? - ela continuou. - Ou prefere fingir que esqueceu também?
Rafael respirou fundo. Algumas lágrimas escaparam por seus olhos injetados e arregalados.
Como se cada palavra dela fosse um golpe físico.
- Eu perdi meu filho também.
A frase saiu quase quebrada.
Lorena riu.
Uma risada baixa.
Amarga.
- Não.
Ela balançou a cabeça.
- Você perdeu uma possibilidade.
O olhar dela endureceu.
- Eu perdi um pedaço do meu corpo.
Rafael ficou em silêncio.
- Eu senti ele morrer dentro de mim.
Agora a voz dela tremia.
Finalmente.
- Eu senti quando o coração dele parou.
Aquelas palavras atingiram Rafael como um soco no estômago.
Ele deu um passo para trás, desequilibrado, como se o chão já não fosse estável sob seus pés.
- Por favor… para.
Mas ela não queria parar.
Não mais.
- E sabe o que é pior?
Ela respirou fundo.
Tentando manter o controle.
- Eu passei anos acreditando que aquilo tinha sido apenas uma tragédia.
Os olhos dela estavam fixos nele.
- Uma fatalidade.
Rafael franziu a testa.
Confuso.
- Mas não foi, foi?
A pergunta pairou no ar.
- Você estava bêbado naquela noite.
Rafael congelou completamente.
- Eu não queria ir com você - continuou ela.
A voz dela começou a subir novamente.
- Mas como sempre, você nunca se importou com o que eu queria.
O silêncio ficou opressor.
- Você bebeu antes de dirigir. Me levou embora à força de um simples jantar com amigos.
Rafael abriu a boca.
Mas nenhuma palavra saiu.
Lorena o observava.
Cada reação.
Cada respiração.
- Então me diz - ela sussurrou. - Foi mesmo um acidente?
A mandíbula de Rafael tremia agora.
- Eu… eu não estava bêbado - a voz dele falhou. - Eu só tinha bebido um pouco.
Lorena soltou o ar devagar.
- Claro.
Ela virou o rosto por um momento, passando a mão pelos cabelos.
Quando voltou a olhar para ele, havia algo diferente em seus olhos.
Algo mais frio.
Mais distante.
- Mas sabe de uma coisa?
Rafael ficou imóvel.
- Eu até poderia ter tentado viver com isso.
Ele piscou.
- Com o quê?
- Com o acidente.
A resposta veio rápida.
- Com a culpa.
Ela respirou fundo.
- Eu poderia ter tentado seguir em frente.
O coração de Rafael começou a bater mais rápido.
Algo na forma como ela falava o deixava inquieto.
- Porque eu te amava.
O silêncio caiu novamente.
- Eu amei você o suficiente para permitir que você escapasse impune…
A voz dela enfraqueceu um pouco.
- Que talvez eu tivesse conseguido perdoar.
Rafael deu um passo à frente.
Cauteloso.
- Por favor, não…
Mas então ela disse:
- Mas você não parou aí.
A frase saiu baixa.
Cortante.
Ele congelou.
- O que você quer dizer?
Lorena o observou por alguns segundos.
Como se estivesse medindo o peso das próximas palavras.
- Você realmente achou que eu nunca ia descobrir?
O coração dele disparou.
- Descobrir o quê?
Ela riu.
Sem humor algum.
- Sério?
Ela deu um passo à frente.
- Você acha que eu sou tão estúpida assim?
Rafael sentiu um frio subir pela espinha.
- Lorena… do que você está falando?
A resposta veio como uma lâmina.
- Da Nina.
O nome caiu na sala como uma explosão silenciosa.
Rafael ficou completamente imóvel.
Os olhos se arregalaram.
- Eu…
Ele tentou falar.
Mas Lorena não deixou.
- Sua própria cunhada.
A voz dela estava cheia de desprezo.
- A esposa do seu irmão.
Cada palavra parecia rasgar o ar.
- Me diz uma coisa.
Ela inclinou levemente a cabeça.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Ele Teve um Filho com Outra - Casei com o CEO que Ele Odeia