O quarto estava silencioso, sufocante.
As bandejas sobre a mesa permaneciam praticamente intocadas, a comida fria, esquecida como se o tempo tivesse parado ali dentro. Lorena estava sentada na beira da cama, os cotovelos apoiados nas pernas, os dedos pressionando as têmporas enquanto a dor de cabeça latejava, insistente.
Ela não tinha dormido. Não de verdade. Talvez alguns minutos fragmentados e inquietos, sempre interrompidos pela mesma sensação - as mãos dele, a força, a falta de escolha.
Abriu os olhos devagar e respirou fundo, mas o ar parecia não entrar direito.
A porta se abriu sem aviso.
Lorena não se moveu.
Rafael entrou com a expressão calma, quase suave, como se nada tivesse acontecido, como se aquela noite não tivesse existido, como se ela não estivesse ali contra a própria vontade.
- Você não comeu.
A voz dele era baixa, carinhosa.
Lorena permaneceu em silêncio.
Ele se aproximou e parou a poucos passos, observando-a com atenção.
- Você precisa se alimentar - disse, no mesmo tom paciente e controlado.
Ela ergueu o olhar, frio, distante.
- Eu não estou com fome.
Rafael sustentou o olhar por alguns segundos antes de suspirar, como se estivesse lidando com algo pequeno, contornável.
- Tudo bem.
Então estendeu um vestido. Lorena nem tinha percebido que ele carregava aquilo - dobrado, perfeitamente escolhido.
- Veste isso. O vovô está dando um jantar importante hoje, e nós precisamos ir.
Ele ofereceu o tecido com naturalidade, como se fosse apenas mais uma rotina entre eles.
Lorena olhou.
Mas não se moveu.
- Eu não vou.
A resposta saiu baixa, cansada, mas firme.
Rafael ficou em silêncio por um instante. Depois assentiu levemente.
- Eu sei que você não quer, mas foi um pedido do meu avô… e eu não posso recusar.
Lorena soltou uma risada fraca, sem humor.
- Claro que não.
Ele ignorou o tom.
- Nós vamos ficar pouco tempo. Eu prometo.
Tentou se aproximar.
Lorena recuou.
Foi um movimento pequeno, mas suficiente.
Rafael parou, observou… e então assentiu.
- Tudo bem. Você precisa de tempo. Eu entendo.
Mas não desviou os olhos dela.
- Eu já te conquistei uma vez.
Algo gelou dentro dela.
- Mesmo que leve outros cinco anos… eu estou disposto, Lolô.
O apelido caiu no ar como algo errado, deslocado, quase invasivo.
- Quando estiver pronta… desça.
Ele se afastou e saiu.
A porta se fechou.
Lorena permaneceu parada, o vestido sobre a cama - impecável, perfeito demais, como uma peça de figurino esperando que ela representasse um papel que já não queria mais interpretar.
No carro seguiu em silêncio.
Lorena encostou a cabeça no banco, os olhos pesados, o corpo exausto.
- Você pode dormir um pouco - disse Rafael, a voz suave demais. - Você parece cansada.
Ela não respondeu, nem se moveu.
Mas por dentro algo se revirou.
Porque quanto mais ele era atencioso, mais ficava claro que nada daquilo importava. Não o que ela sentia, não o que ela queria - só o que ele decidia, o que ele precisava, o que ele escolhia.
Lorena fechou os olhos, não para dormir, mas para não precisar olhar para ele.
Quando o carro parou diante da casa de campo, as luzes já estavam todas acesas, tornando a construção ainda mais imponente, quase intimidadora.
Ao lado dela, Rafael mantinha as mãos firmes no volante. Silencioso, mas inquieto.
Lorena percebeu.
Nos pequenos gestos. Na respiração mais curta. Na forma como os dedos dele apertavam o couro com força demais.
Ele também não estava confortável.
Aquilo era novo.
Rafael saiu do carro e deu a volta para abrir a porta para ela. Parada diante da casa, Lorena olhou discretamente ao redor - a estrada, as árvores, a escuridão além dos portões.
Por um segundo… pensou em correr.
Rafael se inclinou levemente na direção dela, como se tivesse lido seus pensamentos.
- Não tenta nada estúpido hoje.
A voz era baixa, perigosa.
- Eu dobrei a segurança.
E não estava blefando.
Se antes apenas um carro os acompanhava, naquela noite três veículos faziam a escolta. E, ao entrar na propriedade, Lorena percebeu ainda mais seguranças espalhados pela casa de campo - muito mais do que o normal.
Rafael se aproximou e pousou a mão na parte baixa das costas dela, guiando-a para dentro.
Controlando.
Possuindo.
Lorena resistiu ao impulso de se afastar.
Ainda não.
A sala de jantar já estava cheia. Luzes quentes, conversas baixas, olhares atentos.
E então…
O impacto.
Dante.
Sentado à mesa, ao lado do patriarca, como se aquele fosse exatamente o lugar dele. Como se sempre tivesse sido. Como se fosse o convidado de honra.
O que, claramente, era.
Rafael parou.
Congelou.
A mão dele apertou a de Lorena com força - forte demais.
Ela puxou.
- Está me machucando.
Ele soltou imediatamente.
- Desculpa.
Mas não olhou para ela.
Os olhos estavam presos em Dante. Escuros, carregados de algo perigoso, algo que crescia rápido demais.
Rafael procurou o lugar mais distante possível e a conduziu até lá, como se distância pudesse resolver alguma coisa.
Lorena se sentou.
Mas não tirou os olhos de Dante.
Ele também a observava.
Por um segundo.
Apenas um.
Mas foi o suficiente.
Algo silencioso passou entre eles - algo que Rafael não viu… ou talvez não quis ver.
Além de Dante, alguns diretores da empresa estavam presentes. Homens influentes, atentos, interessados.
O patriarca parecia radiante. Satisfeito demais.
- Que bom que todos vieram - disse, erguendo a taça, a voz firme, autoritária.
A mãe de Rafael não se conteve. O olhar fixo em Dante, carregado de desprezo.
- Interessante escolha de convidados…
- Chega, Sônia.
A voz do patriarca cortou o ar, fria, sem espaço para réplica.



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