O escritório do patriarca era silencioso.
Pesado.
O tipo de silêncio que não acalmava, pressionava.
As paredes de madeira escura absorviam qualquer som, e os retratos dos antepassados pareciam observar tudo de seus lugares fixos, imutáveis, como se o tempo ali dentro tivesse parado há décadas.
Rafael estava de pé, ligeiramente afastado da mesa, enquanto o avô permanecia sentado atrás dela - as mãos apoiadas sobre a madeira escura, os olhos atentos, calculistas, avaliando cada detalhe como um predador que não precisa se mover para inspirar medo.
Dante ocupava a poltrona lateral.
Tranquilo demais.
Como se estivesse exatamente onde queria estar.
Como se toda a sua vida tivesse sido construída para aquele momento.
- Os números não me agradam.
A voz do velho quebrou o silêncio sem aviso.
Fria. Direta. Sem espaço para interpretações.
Rafael não respondeu.
Já esperava por aquilo.
Sabia que as coisas não iam bem - os últimos relatórios eram claros - mas também sabia que números, naquela família, raramente eram apenas números. Eram armas.
- Eu construí esse império com muito mais do que estratégia - continuou o patriarca. - Construí com controle. Com visão. E, acima de tudo… com resultados.
Ele apoiou as costas na cadeira, um rangido discreto quebrou o silêncio.
- E você não está entregando isso.
Rafael travou o maxilar, os dentes apertados com força suficiente para doer, mas permaneceu em silêncio.
Não era o momento.
Não ali.
Não na frente dele.
- É por isso - o velho continuou, voltando o olhar para Dante com uma lentidão calculada - que eu quero cooperação total entre vocês dois.
Uma pausa.
Curta.
Intencional.
- Dante terá acesso completo ao departamento de tecnologia e inovação… e a qualquer outra área que julgar necessária.
O olhar voltou para Rafael.
- Sem restrições.
A palavra caiu como uma sentença.
Rafael sentiu o sangue ferver.
Mas não reagiu.
Não ali.
Não na frente dele.
Porque conhecia aquele jogo.
Sabia que confronto direto, naquele momento, só o enfraqueceria.
- Entendido - respondeu, por fim, com a voz controlada, quase mecânica.
Mas por dentro, algo queimava.
Mais do que raiva.
Humilhação.
A humilhação de ter que ouvir aquilo na frente do primo bastardo, do excluído, do que sempre foi tratado como erro e agora ocupava a poltrona lateral como se fosse o herdeiro legítimo.
E, ainda assim… não era só isso.
Havia outra coisa.
Uma inquietação crescente que ele não conseguia ignorar.
Desde que chegaram.
Desde o momento em que colocou os pés naquela casa.
Algo estava errado.
Os seguranças.
A quantidade.
A movimentação.
Discreta demais… para ser normal.
Os olhos de Rafael passaram rapidamente por Dante.
Seria aquilo obra dele?
O pensamento ficou ali.
Incomodando.
Crescendo.
- Ótimo - disse o patriarca, satisfeito, um leve sorriso surgindo no canto dos lábios. - Fico feliz que, pelo menos nisso, você ainda saiba obedecer.
Rafael respirou fundo.
Não respondeu.
Só queria sair dali.
Voltar.
Verificar.
Ter certeza de que tudo estava sob controle.
O celular de Dante vibrou sobre a mesa.
Um som baixo.
Mas suficiente.
Ele olhou rapidamente para a tela - um movimento rápido, quase imperceptível, mas que Rafael capturou.
E então se levantou.
- Preciso resolver uma coisa.
O patriarca assentiu, sem questionar.
- Vá.
Dante lançou um último olhar para Rafael.
Rápido.
Indecifrável.
Mas havia algo ali - um brilho nos olhos verdes que Rafael não conseguiu interpretar.
E saiu.
A porta se fechou atrás dele com um clique suave.
Rafael aproveitou o movimento.
- Se não houver mais nada, eu também…
- Ainda não.
A voz do velho o cortou antes que terminasse.
Rafael parou.
Lentamente.
Virou-se de volta.

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